— Por que não me chama de
A expressão de Sheeling não se alterou; gostava de Malcolm, admirava-o, lamentava pelo fardo que ele tinha agora de carregar.
— É, sim, e tem toda razão, chegou a hora de eu parar de chamá-lo de “Sr. Malcolm”. Mas, pedindo perdão, seu pai me disse exatamente a mesma coisa depois que se tornou o
— Pelo que sei, o capitão Orlov chamava meu pai de
— É verdade — murmurou o capitão, empertigando-se. — Quando o capitão Orlov desapareceu, seu pai me pôs no comando da frota. Servi a seu pai com todo o meu empenho, como também servirei a você, e a seu filho, se viver por tanto tempo. Como um favor especial, poderia tratá-lo da mesma maneira que a seu pai?
Sheeling era mais do que valioso para a Casa Nobre. Todos os três sabiam disso. E também conheciam sua inflexibilidade. Malcolm acenou com a cabeça, mas sentia-se magoado.
— Eu lhe desejo uma viagem segura, capitão.
— Obrigado, senhor. E... e boa sorte, Sr. Struan, em tudo. E a você também, Jamie.
Enquanto ele se encaminhava para a porta, Malcolm rompeu o primeiro lacre. Antes que o capitão tocasse na maçaneta, a porta foi aberta pelo outro lado. Era Angelique. Touca, vestido azul marinho, luvas, sombrinha. Todos os três homens prenderam a respiração por sua radiância.
— Oh, desculpe,
— Não tem problema, pode entrar. — Malcolm levantou-se com dificuldade. — Quero apresentá-la ao capitão Sheeling, do
— Ah,
— Também acho, miss. Obrigado — disse Sheeling, retribuindo o sorriso. Por Deus, pensou ele, nunca a tendo visto antes, quem pode culpar Malcolm? — Bom dia, miss.
Ele bateu continência e se retirou, embora não desejasse sair agora, pelo menos por mais algum tempo.
— Desculpe interromper, Malcolm, mas disse que eu viesse buscá-lo para o almoço, que será com Sir William... e espero que não tenha esquecido que marquei uma aula de piano com André esta tarde e combinei para tirarmos nosso daguerreótipo às cinco horas. Olá, Jamie.
— Nosso retrato?
— Isso mesmo. Lembra daquele italiano engraçado que chegou com o último navio de correspondência, procedente de Hong Kong, para passar uma temporada aqui? Ele faz retratos e garante que vamos ficar muito bonitos!
A maior parte da preocupação de Malcolm se dissipou e ele sentiu toda a presença de Angelique, babando por ela, embora a tivesse visto apenas uma hora antes — café em sua suíte às onze horas, um hábito que ela instituíra, e que ele adorava. Durante as últimas duas ou três semanas, a disposição amorosa de Angelique parecia ter desabrochado ainda mais, apesar de ela consumir muito do seu tempo em passeios a cavalo, prática de arco e flecha, aulas de piano, planejando saraus, ou escrevendo seu diário ou cartas, o que era um modo de vida para todos. Mas, a cada momento que passava em sua companhia, ela era tão atenciosa e terna quanto uma mulher podia ser. O amor e a necessidade que sentia dela cresciam a cada dia, sufocando-o com seu poder.
— O almoço será a uma hora, querida, e passa um pouco de meio-dia —disse Malcolm e, por mais que não quisesse que ela se retirasse, acrescentou: — Pode nos dar alguns minutos?
— Claro.
Com extrema graça, Angelique pareceu dançar até ele, beijou-o e foi para sua suíte, ao lado. Seu perfume perdurou como uma lembrança deliciosa.
Os dedos de Malcolm tremeram ao romperem o último lacre. Havia três cartas lá dentro. Duas de sua mãe, uma para ele, outra para Jamie. A terceira carta era de Gordon Chen, o
— Tome aqui — murmurou ele, entregando a carta para Jamie.
Seu coração batia forte, desejando que Sheeling não tivesse chegado. As outras duas cartas ardiam em seus dedos.
— Vou deixá-lo sozinho — disse Jamie.
— Não. As más notícias precisam de companhia. — Malcolm levantou os olhos. — Abra a sua.
Jamie obedeceu e leu rapidamente. Seu rosto ficou vermelho.
— É particular, Jamie?