Mostrei esta carta a Gordon Chen e pedi-lhe que comentasse o que julgasse necessário, pois nosso compradore deve, mas DEVE mesmo, pela Lei de Dirk, participar de todas as discussões sobre o poder. Sua mãe devotada. PS. Eu amo você, e um P.P.S.: Obrigada por sua informação sobre o Parlamento, mais uma manifestação da habitual estupidez deles (via o estranho canal do nosso arquiinimigo Greyforth. Tome cuidado com ele, é um homem que não nos deseja nada de bom, mas você já sabe disso melhor do que eu). Mas é verdade, ouvimos os rumores, embora o governador ainda negue qualquer conhecimento. Escrevi para os nossos parlamentares aos primeiros rumores, dizendo-lhes que acabassem com esse absurdo, se for verdade, e para Bengala, alertando todo mundo ali. Depois de sua carta, escrevi de novo. É realmente hora de você voltar para casa, assumir seu dever e enfrentar nossos crescentes problemas.
— Dever! — gritou Malcolm para a parede.
Ele amassou a carta numa bola, arremessou-a contra a parede com toda força, machucando-se com a própria violência. Levantou-se, cambaleando, claudicou até a cômoda. O vidro continha sua dose noturna. Ele tomou tudo, quebrou o vidro no tampo de carvalho, praguejando, e quase caiu, ao tatear de volta para a cadeira.
— Ela não pode fazer isso! Não pode! Aquela... aquela desgraçada não pode fazer isso... não pode! “Voltar sozinho” significa sem Angel... não farei isso e ela não vai interferir...
Malcolm continuou a meio pensar e meio falar, as imprecações se sucedendo, até que o opiato entrou na corrente sanguínea e começou a proporcionar o alívio letal.
Depois de algum tempo, ele notou a outra carta, do compradore, Gordon Chen meio-irmão de seu pai, um dos muitos filhos ilegítimos de Dirk Struan.
— Conhecemos no mínimo três — disse ele, em voz alta.
Meu querido sobrinho: Já escrevi para dizer o quanto lamento sua desventura, os ferimentos, o acidente. Lamento ainda mais saber que há uma desavença entre você e sua mãe, que pode se tornar perigosa e até desintegrar a Casa Nobre — portanto, é meu dever comentar e aconselhar. Ela me mostrou a carta que escreveu para você. Não lhe mostrei a minha, nem mostrarei. Na minha, tratarei apenas da posição de tai-pan, e darei o meu conselho muito particular sobre a moça: seja chinês.
Fatos: embora você seja formalmente o herdeiro de meu meio-irmão, sua mãe alega corretamente que não passou pela cerimônia obrigatória, confirmações, juramentos e assinaturas determinados pelo testamento e legado de meu honrado pai, que são necessários antes que se torne tai-pan. Para que tudo seja válido, deve ser testemunhado pessoalmente e confirmado por escrito pelo atual compradore, que deve ser do meu ramo da casa de Chen. Só assim o escolhido vira o tai-pan.