— Acho que entortei as costas para sempre.
— Champanhe para o exército e rum para a marinha! — gritou Angelique.
Ela deu os braços aos dois e levou-os até Malcolm, para mais elogios. Sorrindo para ele, comentou:
— Nada de cancã para mim, não é mesmo, querido?
— Seria demais.
— Concordo — disse Marlowe.
— Também acho — arrematou Malcolm, partilhando o sorriso secreto com a noiva, num agradável excitamento.
Ao recomeçar a tocar, André escolheu uma valsa. Era apenas o suficiente para ela mostrar os tornozelos enquanto rodopiava, mas não o bastante para revelar a ousada ausência das pantalonas. Fora ele quem lhe mostrara o artigo em
Se as coisas fossem diferentes, e eu estivesse em Paris com ela, apoiado pelo poder e dinheiro da Casa Nobre, com um marido que a adora, mas inválido, quantos segredos poderia obter! Angelique precisaria de um treinamento mais extenso nas artes femininas, não tão gentis quanto se podia imaginar, suas garras teriam de ser afiadas, mas depois se tornaria uma clássica, qualquer salão e qualquer cama a acolheriam com o maior prazer, e depois que experimentasse o Grande Jogo, aquela menina tão astuta haveria de se empenhar com a maior satisfação.
E na minha cama? Agora ou mais tarde, com toda certeza, se eu quisesse pressioná-la, mas não a desejo mais, e não a terei, exceto por vingança. Ela é muito mais divertida como um joguete, e há bem pouca coisa neste mundo para divertir...
— Uma idéia sensacional, André! — exclamou Phillip Tyrer, radiante, ao seu lado. — Settry disse que você tramou tudo com eles.
— O quê?
— O cancã!
— Ah, sim... — Os dedos de André continuaram a tocar a valsa por mais um momento, mas logo pararam. — É tempo para uma pausa. Vamos tomar um drinque.
Ele concluiu que agora, sendo quase público, seria uma ocasião perfeita para controlar Tyrer.
— Ouvi dizer que o contrato de uma certa dama vale o salário de um ministro — comentou ele, em francês.
O rosto de Tyrer se avermelhou em embaraço, ele correu os olhos ao redor André acrescentou:
— Por Deus, Phillip, parece até que eu poderia ser indiscreto a esse ponto Não se preocupe, meu amigo, pois sempre defendo seus interesses. — Ele sorriu recordando o encontro dos dois no castelo em Iedo. — Afinal, as questões do coração nada têm a ver com as questões de Estado, embora eu acredite que a França deveria partilhar os despojos do mundo com a Grã-Bretanha... não concorda?
— Eu... concordo, André. Mas... as negociações não correm muito bem, infelizmente, ainda estamos num impasse.
— Não acha que é melhor falar em francês?
— Tem razão. — Tyrer usou seu lenço como um
André fez um sinal para que ele chegasse mais perto.
— Posso lhe dizer como acertar tudo: não a veja esta noite, embora tenha um encontro marcado. — Ele quase riu quando Tyrer ficou boquiaberto. — Quantas vezes já expliquei que existem bem poucos segredos por aqui? Talvez eu possa ajudar... se você precisar de ajuda.
— Claro que preciso. Seria um grande favor.
— Neste caso...
Os dois olharam para a mesa de roleta, que fora armada na outra extremidade da sala, onde houve uma explosão de risos e aplausos quando Angelique ganhou no duplo zero... não era jogo a dinheiro naquela noite, apenas moedas chinesas de bronze, sem valor. Vargas atuava como
— Sorte no jogo e sorte no amor.
— Ela trabalha para isso — murmurou André, irritado com Angelique. — E você deveria fazer a mesma coisa. Não compareça ao encontro desta noite com Fujiko. Claro que sei que Raiko arrumou tudo por sua súplica... e não foi Raiko quem me contou, diga-se de passagem, mas uma de suas criadas. Não vá, e não mande nenhum aviso, apenas procure outra casa, a estalagem dos Lírios, por exemplo, pegue qualquer moça ali, a mais bonita se chama Yuko.
— Mas eu não quero, André...
— Se não quiser levá-la para a cama, apenas faça com que ela o Sirva por outros meios, trate de se embriagar, ou finja estar bêbado, e pode ter certeza de que não vai desperdiçar seu dinheiro. Amanhã, quando Nakama mencionar Fujiko, ou qualquer coisa sobre o contrato e Raiko, demonstre indiferença, e de noite repita o desempenho.
— Mas...