— Nem eu — respondeu o gigante, com uma risada trovejante. — Fui inspirado... ela inspira qualquer um. Normalmente, danço como um rinoceronte.
Os dois contemplaram Angelique, através da sala.
— Uma constituição extraordinária a dessa moça... e que riso maravilhoso, contagiante!
— Tem razão. Malcolm é mesmo um sujeito de sorte. Com licença. Tenho de pedir a Henri para substituir André...
Tyrer afastou-se. Babcott tornou a observar Angelique. É curioso que um médico possa examinar uma paciente sem se sentir excitado, pensou ele, mesmo sendo uma mulher assim. E não fiquei, nas ocasiões em que ela me consultou em Kanagawa, ou aqui, embora nunca houvesse um exame intimo, pois não havia necessidade, exceto por sua menstruação intensa demais, há poucas semanas, quando um exame mais meticuloso era indicado, só que ela nunca permitiu. Nunca a vi tão pálida, com os lábios tão exangues. Pensando nisso, ela se comportou de maneira estranha, nem me deixou chegar perto, apenas me permitiu entrar no quarto, por um breve instante, quase como um estranho, quando na noite anterior — na ocasião em que lhe devolvi sua cruz — escutei o que havia em seu coração, auscultei seu peito e costas, verifiquei o estômago, e ela reagiu como uma paciente normal. Lembro que tinha a pulsação um pouco acelerada, sem qualquer motivo aparente. Um comportamento curioso.
Será que deixei de perceber alguma coisa? — ele perguntou a si mesmo, observando-a à mesa da roleta, transbordando de vida, batendo palmas com infantil júbilo ao ganhar, no vermelho ou no preto, Zergeyev e os outros lhe ensinando a arte do jogo. E é estranho que ela não use sua cruz, como a maioria dos católicos, ainda mais quando foi um presente da mãe adorada.
— Grande festa, Malcolm — disse Sir William, aproximando-se, a reprimir um bocejo. — Mas é tempo de me recolher.
— Outro conhaque?
Malcolm estava sentado perto do canto da lareira, o fogo agora reduzido a brasas.
— Não, obrigado. Já bebi o suficiente. Grande dama, Malcolm, grande diversão.
— É verdade — concordou Malcolm, orgulhoso.
Ele sentia-se melhor, com o vinho e o conhaque, que amorteciam a dor e acalmavam seu pânico persistente pelo futuro. Não tão forte quanto o medicamento, pensou ele. Mas não tem importância, é um começo.
— Bom... boa noite. — Sir William esticou-se. — Ah, antes que eu me esqueça, você poderia me procurar amanhã, a qualquer hora que quiser.
Malcolm levantou os olhos abruptamente, a lembrança da carta da mãe deixando seu estômago gelado outra vez.
— Por volta de onze horas está bem?
— Perfeito. Se quiser mudar, não tem problema.
— Não. Irei às onze horas. Sobre o que deseja me falar, Sir William?
— Pode esperar. Não há nada que não possa esperar.
— Sobre o que, Sir William?
Ele percebeu a compaixão nos olhos que o estudavam. Seu desconforto aumentou.
— É sobre a carta de minha mãe, não é mesmo... ela disse que lhe escreveria pela correspondência que chegou hoje.
— É isso mesmo, mas apenas em parte. Fui informado que deveria esperar uma carta. O primeiro assunto é Norbert, agora que ele voltou. Espero que já tenham esquecido essa bobagem de duelo.
— Claro.
Sir William soltou um grunhido, sem estar convencido, mas deixou o caso por aí. Não podia fazer mais do que advertir as duas partes e, depois, se insistissem, imporia a lei.
— Vocês dois estão avisados.
— Obrigado. E qual é o segundo assunto?
— Recebi a comunicação oficial do plano do governo de proibir todo o comércio de ópio por cidadãos britânicos, todo o transporte em navios britânicos, destruir as plantações de ópio em Bengala, substituindo-as por chá. Como liderava a delegação para pedir e se queixar dos rumores, eu queria que fosse o primeiro a saber.
— Isso vai arruinar nosso comércio asiático, todo o comércio na China, e transtornar por completo a economia britânica.
— A curto prazo, vai sem dúvida causar um grande problema para o Tesouro mas é o único curso moral possível. Essa providência já deveria ter sido adotada há alguns anos. É claro que compreendo o insolúvel triângulo prata-ópio-chá e o caos que a receita perdida acarretará para o Tesouro.
Sir William assoou o nariz, já cansado do problema que há anos afligia o Ministério do Exterior.
— Acho que peguei um resfriado. Sugiro que convoque uma reunião para a próxima semana, a fim de discutir como podemos reduzir a confusão.
— Está certo.
— Cultivar nosso próprio chá é uma boa idéia, Malcolm — comentou Sir William. — Mais do que isso, uma idéia maravilhosa! Pode interessá-lo saber que as primeiras plantações experimentais em Bengala estão produzindo colheitas de sementes contrabandeadas da China, levadas para
— Sei disso, e até provei o chá, que é amargo e preto, sem nada da delicadeza do chá chinês, ou até mesmo do japonês — respondeu Malcolm, impaciente. O chá podia esperar até o dia seguinte. — O que mais?