— Sempre que Nakama mencionar qualquer coisa, banque o indiferente, não diga nada, apenas que a estalagem dos Lírios parece muito promissora, ordene em tom ríspido que ele não torne a falar no assunto. Entendido até aqui?
— Entendido, mas você não acha...
— Não, não acho, a menos que você prefira ser levado à loucura e não queira ter Fujiko a um preço relativamente razoável... e de qualquer maneira, Phillip você vai continuar no impasse. O que não importa. Não é justo que tenha de mendigar, é uma questão de honra. Não discuta esse plano com Nakama, e mantenha o esquema por uma semana, no mínimo.
— Por Deus, André, uma semana?
— O melhor seriam três semanas, meu velho amigo. — André se divertiu com a expressão angustiada de Tyrer. — Não apenas estou lhe poupando muito dinheiro com isso, mas também um oceano de aborrecimentos. É importante que comporte como se não desse a menor importância, que se mostre irritado com as protelações, os encontros desmarcados e o preço absurdo pedido por Raiko... ainda mais por se tratar de alguém tão importante como você! Será uma boa coisa deixar Nakama desconcertado. Mas não muito, pois ele é um sujeito esperto, não é mesmo?
— É, sim... inteligente e perceptivo.
Também acho, pensou André, e muito em breve chegará o momento de partilhar tudo comigo, tanto o que ele lhe contou, como o que consegui descobrir por mim mesmo. É curioso que Nakama fale inglês... graças a Deus que meus espiões têm ouvidos bem abertos, além dos olhos. Isso explica muita coisa, embora eu não entenda por que ele não fala em inglês comigo, nem mesmo em japonês, sempre que o encontro sozinho. Deve ser porque Willie deu essa ordem.
— Tenho certeza que Raiko vai me pedir uma dúzia de vezes para interceder, promover um encontro — continuou André. — Depois de uma semana, concordarei em atendê-la, mas com evidente relutância. Não deixe que Nakama faça isso, não permita que ele entre no jogo. Ao se encontrar com Raiko, banque o duro e aja da mesma forma com Fujiko. Terá de parecer convincente, Phillip.
— Mas...
— Diga a Raiko que ela estava correta ao considerar os interesses de seu cliente, os seus interesses, em primeiro lugar... ainda mais porque você é uma autoridade importante, repise isso... dando-lhe tempo para pensar no assunto com o maior cuidado. E concorde que é melhor ser prudente, que comprar agora o contrato da “mulher” não é uma boa idéia. Diga “mulher”, em vez de Fujiko... não se esqueça que do ponto de vista delas você apenas negocia no momento o preço de uma mercadoria, não a dama que adora. Agradeça a Raiko, declare que com a sua ajuda pôde pensar melhor, e acha agora que seria um erro comprar um contrato. Vai apenas alugar os serviços da “mulher” de vez em quando, e se a “mulher” estiver ocupada,
Tyrer escutava com toda atenção, sabia que André tinha razão, e se angustiou à perspectiva de não ver Fujiko por uma semana, já imaginando-a a sofrer sob o peso de cada
— Eu... concordo com tudo o que disse, André, mas acho que não serei capaz... de fazer a encenação.
— Tem de fazer. Por que não? Afinal, eles representam durante todo o tempo. Ainda não percebeu que essa gente vive a mentira como se fosse a verdade e a verdade como se fosse mentira? As mulheres não têm opção, ainda mais no mundo flutuante. Os homens? São ainda piores. Lembre-se do
André estremeceu. Conhecia muito bem essa armadilha. Caíra nela. Raiko o pressionara muito além de seus limites financeiros. Isso não é verdade, disse ele a si mesmo, irritado. Pode distorcer a verdade e a mentira para outras pessoas, mas não faça isso com você próprio, com seu eu secreto, ou estará perdido. A verdade é que me lancei ao limite, fui além, com a maior satisfação. Há dezessete dias.
No instante em que Raiko me apresentou à moça...
No instante em que a vi, com seus cabelos negros, pele de alabastro, olhos fascinantes, compreendi que daria a Raiko até minha alma, e mergulharia no abismo eterno para possuí-la. Eu, André Eduard Poncin, servidor da França, mestre da espionagem, assassino, perito na vileza da natureza humana, eu, o grande cínico, me apaixonei à primeira vista. Uma loucura! Mas a verdade.
Assim que a moça se retirou, eu, desamparado, emocionado, balbuciei:
— Raiko, por favor, pago qualquer coisa que pedir.
— Sinto muito,
— Pago qualquer dinheiro. Por favor, pergunte se ela aceita.
— Está bem. Por favor, volte amanhã, ao anoitecer.