— Agora, minha criança, um problema particular. Há dois dias, o Sr. Struan mandou me chamar, para uma conversa confidencial, e pediu-me para casar vocês dois.

Angelique ficou boquiaberta, depois exibiu um sorriso glorioso.

— Oh, padre, que maravilha!

— Tem toda razão, minha criança. “Por favor, case-nos o mais depressa possível”, pediu o jovem Sr. Struan. Mas é difícil. — Noite e dia, ele remoera o problema. Enviara no mesmo dia uma carta urgente para o bispo de Macau, líder espiritual católico na Ásia, suplicando conselho, também urgente. — Muito difícil para nós.

— Por que, padre?

— Porque ele não é católico, e...

— Mas ele concordou que nossos filhos serão criados na verdadeira igreja. Foi o que me prometeu.

— É verdade, minha criança, ele me disse a mesma coisa. Mas o jovem Sr. Struan ainda não alcançou a idade para casar sem permissão, nem você. Mas eu queria lhe dizer, em segredo, que mesmo assim solicitei a Sua Eminência permissão para celebrar a cerimônia, pela maior glória de Deus, até mesmo... com ou sem aprovação de seu pai. Soube que seu pai desapareceu, em algum lugar da Indochina francesa ou Sião.

Os detalhes sobre as fraudes e a fuga do pai haviam circulado pela colônia, mas ninguém contara nada a Angelique, por deferência, nem a Struan.

— Se Sua Eminência concordar, tenho certeza que o senhor Seratard, in lócus parentis, também concordará.

O aperto na garganta de Angelique não desapareceu.

— Quanto tempo vai demorar para Sua Eminência responder... conceder sua aprovação?

— Até o Natal, ou pouco depois, antes disso, se estiver em Macau, e não viajando, em visita aos fiéis na China, e se for a vontade de Deus.— Como sempre, ele sentava do outro lado sem olhar para a tela, um ouvido próximo, para garantir a privacidade sussurrada, mas agora virou o rosto e pôde divisá-la, vagamente. — A questão sobre a qual desejo conversar, em particular, é a conversão do senhor Struan.

Ela ficou outra vez aturdida.

— Ele disse que se converteria?

— Não. Ainda não enxergou a luz, e é sobre isso que quero falar.

Padre Leo inclinou-se para mais perto da tela, saboreando a proximidade de Angelique, dominado por um desejo que sabia ser ímpio, enviado por Satã, o mesmo contra o qual lutava todos os dias e noites, de joelhos... o mesmo que enfrentava, com igual tormento, desde que ingressara na Igreja.

Que Deus me dê força, e que me perdoe, pensou ele, quase em lágrimas, querendo estender as mãos, acariciar os seios e o resto da moça, tudo oculto pela tela e o xale, pelo resto das roupas e a ira de Deus.

— Você deve ajudá-lo a adotar a verdadeira fé.

Angelique mantinha-se tão longe da tela quanto podia. Entreabriu as cortinas, Para reduzir a claustrofobia que a estrutura em forma de caixa lhe proporcionava. Os confessionários nunca foram assim, pensou ela, estremecendo. Só depois... depois do que nunca aconteceu.

— Eu ajudarei, padre, faço tudo o que posso — murmurou ela, o nervosismo aumentando, e de novo fez menção de se retirar.

— Espere!

A violência na voz a chocou.

— Padre?

— Por favor... espere, por favor, minha criança.

A voz era afável agora, mas a afabilidade era forçada, e isso a assustou, pois não era a voz de um padre, sacrossanta, num lugar santificado, mas a de um estranho.

— Devemos conversar sobre esse casamento, minha criança, sobre a conversão de seu noivo. É preciso tomar muito cuidado com as influências malignas. A conversão é indispensável, como um preparativo para... para a eternidade.

— “Indispensável”, padre? — murmurou Angelique. — Ia dizer “indispensável como um preparativo para o casamento”!

— Para... para a eternidade.

Ela fitou a sombra no outro lado da tela, convencida de que ele mentia, consternada por sequer considerar essa possibilidade, muito menos acreditar nela.

— Ajudarei em tudo o que puder, padre.

Ela se levantou, abriu as cortinas, em busca de ar. Mas padre Leo postou-se em seu caminho. Angelique notou o suor em sua testa e que ele pairava acima dela, em altura e volume.

— É para o bem dele, para sua própria salvação. A dele, minha criança. Seria melhor... seria melhor antes.

— Está dizendo, padre, que a conversão de Malcolm é indispensável para que possa nos casar? — indagou ela, apavorada.

— Não cabe a mim determinar as condições. O que Sua Eminência decidir vai nos orientar, pois somos servidores fiéis.

— Na igreja de meu noivo, ninguém disse que devo me tornar protestante. É claro que também não posso forçá-lo.

— É preciso que ele enxergue a verdade! Esse casamento é uma dádiva de Deus. Protestante? Essa heresia? Apostasia? Inadmissível! Estaria perdida para sempre, condenada, excomungada, sua alma eterna consignada ao tormento permanente no fogo, ardendo pelos tempos afora!

Angelique manteve os olhos baixos, era quase incoerente.

— Para mim, sim, para ele... milhões de pessoas acreditam de uma forma diferente.

— Todos estão loucos, perdidos, condenados e arderão para sempre! — A voz era ainda mais dura. — É isso mesmo! Devemos converter os pagãos! Malcolm Struan deve se con...

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