— Ótimo. O melhor preço e tudo em segredo. Esse mercador de arroz... ak quanto ele pagaria! Ela não apresenta outros sinais?

— Outros sinais? Que tipo de sinais?

— O medicamento varia para diferentes damas. Às vezes pode torná-la muito mais... muito mais ardentes, mais difíceis de satisfazer. Às vezes aumenta a possibilidade de engravidar, às vezes destrói toda e qualquer possibilidade. Estranho, neh?

Ele não se sentia mais divertido.

— Não me contou isso antes.

— Faria alguma diferença?

Depois de um momento, André sacudiu a cabeça. Ela tomou um gole de saquê.

— Por favor, perdoe-me por falar em dinheiro, mas um oban de ouro não compra mais o que deveria comprar. As autoridades aviltaram nossa moeda e fedem, como peixe de oito dias misturado com bosta de cachorro!

— Tem toda razão.

Ele não entendera todas as palavras, mas absorvera o sentido de autoridade e peixe podre e sentia a mesma repulsa. Seratard recusara-se a dar o adiantamento obre o salário que esperava, alegando escassez de fundos na legação.

— Mas só estou pedindo o que terá de me pagar ao longo do ano, Henri. Apenas umas poucas moedas de ouro. Não sou o seu mais valioso assessor aqui?

— Claro que é, meu caro André, mas não se pode tirar vinho de um barril vazio... apenas uma enxaqueca!

Ele bem que tentara outro recurso, mas fora em vão. Portanto, agora só lhe restavam dois caminhos. Angelique ou aquela mama-san.

— Raiko-san, você é muito esperta, eu acho. Deve haver uma maneira de nós dois aumentarmos o dinheiro normal, neh? O que podemos vender?

Ela baixou os olhos para a mesa, a fim de esconder a expressão que havia neles, e indagou:

— Saquê?

Serviu sem esperar por uma resposta. Por ele, o saquê era frio. Os olhos de Raiko eram fendas mínimas, e se perguntou até que ponto podia confiar nele. Como um gato pode confiar num camundongo acuado.

— Informação tem um preço. Neh?

Ela falou em tom de indiferença. André fingiu estar surpreso, deliciado por ela ter mordido a isca com tanta facilidade. Até demais? Provavelmente não. Ela ser apanhada pelo Bakufu, ou ele por seus superiores, acarretava a mesma penalidade: uma morte agoniada.

Sir William pagaria muito bem pela informação certa, Henri não pagaria coisa alguma... que Deus despachasse os dois para o inferno!

— Raiko-san, o que está acontecendo em Iedo?

— Mais importante, o que está acontecendo aqui? — disse ela no mesmo instante, iniciando as negociações. — Guerra, não é? Terrível! A cada dia, mais soldados disparando no estande de tiro, mais canhões atirando, assustando minhas damas.

— Por favor, fale mais devagar.

— Ah, sinto muito.

Raiko passou a falar de forma mais pausada, dizendo como a Yoshiwara se encontrava assustada, descrevendo um quadro local interessante, mas sem nada que ele já não soubesse. E André disse coisas sobre a esquadra e o Exército que tinha certeza que ela também já sabia. Beberam em silêncio, e depois Raiko murmurou:

— Acho que certas autoridades pagariam muito para saber o que o líder gai-jin planeja fazer, e quando.

Ele acenou com a cabeça.

— Sei disso. Também acho que o nosso líder pagaria muito para saber tudo sobre as forças samurais do Nipão, onde se concentram, quem comanda, sobre esse tairo que envia mensagens tão grosseiras.

Raiko exibiu um sorriso radiante, levantou sua taça de porcelana.

— A uma nova sociedade. Muito dinheiro por uma pequena conversa. Ele brindou e disse, cauteloso:

— Uma pequena conversa, sem dúvida, mas deve ser uma pequena coisa importante, para se obter um dinheiro de verdade.

Raiko simulou estar chocada.

— Por acaso sou uma prostituta de terceira classe sem qualquer cérebro? Sem honra? Sem compreensão? Sem ligações, sem... — Mas ela não pôde continuar assim, e soltou uma risada. — Nós dois nos entendemos muito bem. Venha amanhã, ao meio-dia, e conversaremos. Agora, vá ver sua adorável Hinodeh. Aproveite-a, e aproveite também a vida, enquanto todos nós ainda a temos.

— Obrigado, mas não agora. Por favor, avise-a que chegarei mais tarde. — André sorriu para ela, apreciando-a. — E você, Raiko?

— Não tenho nenhuma Hinodeh para procurar, com que sonhar, para escrever poemas, e me encher de êxtase. Outrora foi diferente, mas agora sou mais sensata, gosto de saquê e de ganhar dinheiro, de ganhar dinheiro e saquê. Saia agora. — Ela soltou uma risada brusca. — Mas volte amanhã. Ao meio-dia.

Depois que ele se retirou, Raiko mandou que as criadas trouxessem mais saquê, só que desta vez quente, e não mais a incomodassem. Vendo tanta cordialidade no rosto de André, misturada com a profundeza de sua paixão por Hinodeh, ela experimentara o início da tristeza, e por isso o despachara.

Não podia permitir uma testemunha de sua angústia, das lágrimas abjetas que derramou, incapaz de contê-las, incapaz de controlar seu sofrimento, ao mesmo tempo em que desprezava a fraqueza interior que lhe impunha um frenético anseio por sua juventude, pela moça que já fora, desaparecida há bem pouco tempo atrás, para nunca mais voltar.

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