— Ah, primo, ainda não posso acreditar que conseguiu persuadi-los a me deixar aprender seus segredos de guerra — comentara Akimoto anteontem.
Hiraga suspirou. Já percebera que qualquer coisa relacionada com “negócios” atraía a atenção imediata dos gai-jin. Poesia, nem um pouco, caligrafia, muito menos, a fabricação de espadas apenas um pouco, política, sim, mas apenas no que afetava o comércio, mas a oportunidade de fazer alguma coisa para vender por lucro — qualquer coisa, um navio ou um canhão, uma taça, uma faca, uma peça de seda — proporcionava resultados imediatos. Eles são piores que os ricos mercadores! Alimentam-se de dinheiro!
Ontem à noite, Akimoto bebera além da conta, o que era raro, e começara a divagar sobre dinheiro e os gai-jin.
— Você tem razão, Hiraga, esse é um dos segredos deles: o culto ao dinheiro. Dinheiro! Você é muito esperto ao perceber isso tão depressa! Olhe só para aquele cão que é o shoya! Repare como ele se torna todo ouvidos quando você conta o que Taira ou aquele outro cão gai-jin disseram sobre seus métodos sujos de negócios, como extorquem dinheiro dos outros por todos os meios que puderem, chamando de lucro, como se lucro fosse uma palavra pura, alimentando uns aos outros como piolhos. Quando você fala sobre dinheiro, aquele cabeça de peixe podre que é o shoya não oferece seu melhor saquê, para encorajá-lo a dizer mais e mais? Claro que sim. Ele é como os gai-jin, idolatra o dinheiro, arrancando-o de nós, samurais, deixando-nos a cada ano mais endividados, quando não cria nada, absolutamente nada! Deveríamos matá-lo e fazer o que Ori disse, incendiar esta cloaca fedorenta...
— Acalme-se! Qual é o problema?
— Não quero me acalmar. Quero ação, uma luta, ataque! Estou cansado de ficar sentado a esperar.
Akimoto estava afogueado, a respiração pesada, olhos injetados, e não apenas de saquê. Seu punho enorme batera no tatame.
— E estou cansado de ver você estudar durante a noite inteira, a cabeça num livro. Se não tomar cuidado, vai estragar seus olhos, arruinar o braço da espada, e será um homem morto. Atacar, é para isso que estamos aqui... quero sonno-joi agora, não mais tarde!
— Sem conhecimento e paciência... quantas vezes tenho de lhe dizer isso?
Parece com Ori ou aquele tolo do Shorin. Por que se mostra tão ansioso em por a cabeça no garrote dos vigilantes?
— Não é isso, mas... Você tem razão, Hiraga. Por favor, desculpe, mas...
A voz definhara, e Akimoto tomara mais saquê.
— O que lhe está realmente perturbando? A verdade.
Akimoto hesitara.
— Soube por meu pai. — Depois de um momento, as palavras saíram num fluxo rápido. — A carta chegou através da mama-san de Kanagawa... há fome na aldeia, em todo o distrito, sua família também foi afetada, lamento informar. Dois de meus primos pequenos já morreram. Três dos meus tios renunciaram à condição de samurais e suas espadas... venderam-nas como parte do pagamento ao emprestador de dinheiro, espadas que usaram em Sekigahara... para se tornarem pescadores, pelo menos estão trabalhando nas redes para os donos dos barcos, do amanhecer ao anoitecer, só para ganhar um pouco de dinheiro! Tomiko, a filha viúva de uma tia, que vive conosco, teve de vender sua menina pequena para um. corretor de crianças. Recebeu o suficiente para alimentar o resto da família por meio ano... os dois filhos e o pai inválido. Uma semana depois ela deixou o dinheiro no bule do chá, para que minha mãe o encontrasse, e jogou-se do penhasco. O bilhete dizia que tinha o coração partido por ser obrigada a vender a própria filha, mas o dinheiro podia ajudar a família, e não devia ser desperdiçado com outra boca inútil...
As lágrimas escorriam por suas faces, mas não havia qualquer som de choro na voz, apenas raiva.
— Uma ótima moça, excelente esposa de meu amigo Murai... lembra dele, um dos nossos ronin de Choshu, que morreu no ataque ao tairo Li? Estou lhe dizendo, primo, é horrível ser samurai quando você perde a honra, não recebe um estipêndio, não tem para onde ir, e ser ronin é ainda pior. Mesmo assim, eu... mas você tem razão mais uma vez... acho que teremos de imitar os repulsivos gai-jin se quisermos navios de guerra, até eu sei que eles não crescem em arrozais, e devemos encontrar meios para ganhar o sórdido dinheiro e ser como os sórdidos mercadores de arroz e emprestadores de dinheiro. O sórdido dinheiro, os sórdidos gai-jin, os sór...
— Pare com isso! — interrompera-o Hiraga, o tom ríspido, estendendo outro frasco com saquê. — Você está vivo, trabalhando por sonno-joi, amanhã visitará urn navio de guerra para aprender, e isso é suficiente, primo.
Atordoado, Akimoto balançara a cabeça, enxugando as lágrimas.
— Havia mais notícias? De meu pai, minha família?
— Leia você mesmo.