Não é justo, não é justo, não é justo, lamentou-se ela, erguendo a taça. Não sou a velha megera que contemplo no espelho, eu sou eu, Raiko, a bela, cortesã de segunda classe, eu sou eu, sou eu, sou eu...

— Ah, Otami-sama — disse o shoya. — Boa noite. Sente-se, por favor. Chá? Saquê? Lamento incomodá-lo de novo, mas acabo de receber uma mensagem de meus superiores. Chá?

Hiraga sentou na almofada em frente, na sala agradável, contendo sua impaciência. Agradeceu e aceitou a xícara obrigatória.

— Como vai? — perguntou ele, polido, o coração batendo mais depressa do que gostaria.

— Preocupado, Otami-sama. Parece que os gai-jin estão muito determinados desta vez, há movimentos de tropas em demasia, os navios preparam seus canhões, correm rumores sobre a chegada de mais navios. Soube alguma coisa de seu gai-jin Taira?

Hiraga já pensara a respeito. Tyrer e todo o pessoal da legação andavam agtados desde o ultimato do tairo Anjo, Sir William gritando mais do que o habitual, Johann o intérprete passando horas trancado com Tyrer, reescrevendo cartas para o Bakufu, só de vez em quando lhe pedindo para refinar uma frase.

— É mais fácil se me mostrar a carta, Taira-sama — dizia ele, sempre, querendo saber o que seria enviado.

— Está certo, mas só esta frase, por enquanto... — sempre respondia Taira, inquieto, todos os dias a mesma coisa, o que aumentava a apreensão de Hiraga.

Era evidente que já não confiavam nele como antes, e isso depois que passara dia e noite trabalhando para aprender a língua deles, e lhes dera uma porção de informações. Cães gai-jin desprezíveis, pensara ele, com medo de que a qualquer dia Sir William pudesse ordenar sua expulsão, já que seu cartaz ainda ocupava lugar de destaque na casa da guarda dos samurais, com as patrulhas de vigilantes verificando todos os japoneses que entravam e saíam da colônia.

As patrulhas de vigilantes não deveriam ser permitidas. Os gai-jin são idiotas demais... com o poder marítimo que possuem, eu não permitiria “guardas inimigos” num raio de uma légua! Anjo também é um idiota, por se enfurecer com eles, usando maneiras tão vis, tanta arrogância, quando a esquadra ainda se encontra aqui. Todos enlouqueceram no Conselho de Anciãos!

— As autoridades gai-jin me dizem muitas coisas, shoya — murmurou ele. — Por sorte, estou a par de seus segredos. É possível que eu possa avisá-lo a tempo se algum perigo lhe ameaçar. Enquanto isso, aconselhei-os a tomarem cuidado para não incomodá-lo, nem à aldeia.

O shoya inclinou-se até o tatame, agradecendo, e depois comentou:

— Estes são momentos terríveis, a guerra é terrível, e os impostos serão aumentados de novo.

Otimo, pensou Hiraga, a cabeça doendo, tem condições de pagar, mas isso não vai fazer com que você ou qualquer outro da Gyokoyama coma ou beba menos, nem que suas esposas e mulheres se vistam com menos luxo, mas apenas seus fregueses. Parasitas! Já estão violando as antigas leis da extravagância ao permitirem que suas mulheres usem cores proibidas nas roupas, como o vermelho, e ao fazerem o que bem quiserem em suas casas, sem qualquer repressão do Bakufu, o que é uma estupidez. Quando assumirmos o poder, haverá um ajuste de contas.

Vamos, velho tolo, fale logo o que quer. Não posso desperdiçar a noite inteira aqui, e não vou me rebaixar e perguntar. Tenho mais estudos a fazer esta noite e outro livro para tentar ler.

Talvez eu possa resguardar seus interesses — disse ele, incisivo.

Mais uma vez, o shoya agradeceu.

A mensagem que recebi se relacionava com a moça sobre a qual você perguntou. Há quatro dias lorde Yoshi deixou Quioto, em segredo, pouco antes do amanhecer, com um pequena escolta, disfarçado como um dos soldados. Ela também foi. No grupo... Está se sentindo bem, Otami-sama?

— Estou, sim — balbuciou Hiraga. — Por favor, continue, shoya.

— Claro. No grupo ainda seguia, montada, a cortesã Koiko, a moça que é sua nova maiko...

— Nova o quê? — murmurou Hiraga, o nome “Koiko”, com tudo o que implicava, ressoando por todos os cantos de sua mente.

— Por favor, posso lhe oferecer chá ou saquê? — indagou o shoya, percebendo o impacto de sua notícia. — Ou talvez uma toalha quente. Posso pedir alguma coisa...

— Não, continue — pediu Hiraga, a voz rouca.

— Não há muito mais. Como sabe, a dama Koiko é a mais famosa das cortesãs de Iedo e, agora, a companheira de lorde Yoshi. A moça lhe foi encaminhada há dez dias.

— Por quem?

— Ainda não sabemos, Otami-sama — disse o shoya, guardando essa informação para outra ocasião. — Parece que a dama Koiko aceitou a moça como maiko depois que ela foi pessoalmente entrevistada e aprovada por lorde Yoshi. É a única outra mulher na comitiva. Seu nome é Sumomo Fujahito.

Não há equívoco, Hiraga teve vontade de gritar, esse é o codinome que Katsumata deu a ela; portanto, ele a despachou para o ninho das vespas, mas por quê?

— Em que direção lorde Yoshi seguiu?

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