— Espere! — pediu Malcolm, trêmulo. — Por favor, ajude-me. O dia de amanhã é importante demais para mim. Juro que o apoiarei em tudo, seguirei à frente dos outros, mas tem de me ajudar amanhã. Por favor!
O almirante Ketterer contraiu os lábios, pronto para encerrar aquela conversa inútil. Pois não se trata de outra coisa, embora não reste a menor dúvida de que poderia muito bem aproveitar um partidário entre aqueles desgraçados asquerosos, se há um décimo de verdade nas injúrias que teriam dito na tal reunião. Suponho que este não é dos piores, se fosse possível confiar nele... em comparação com os outros, em comparação com aquele monstro do Greyforth.
— Quando é seu duelo?
Malcolm ia responder com a verdade, mas conteve-se a tempo.
— Responderei se insistir, senhor, e lembro o que disse sobre duelos. Mas devo ressaltar que, em questões de honra, minha família tem sido muito séria há pelo menos duas gerações e não quero que pensem que sou deficiente nesse ponto. É uma tradição, como a da marinha, imagino. Muito da magia da marinha real tem a ver com isso, tradição e honra, não é mesmo?
— Sem isso, a marinha real não seria a marinha real.
Ketterer tirou outra baforada do charuto. Pelo menos o jovem patife compreende, embora isso não altere a balança. A verdade é que a mãe do pobre tolo tem toda razão ao desaprovar o casamento... a moça é muito bonita, sem dúvida, mas não a escolha certa, tem sangue ruim, uma linhagem francesa. Estou lhe prestando um favor.
Será mesmo?
Não se lembra de Consuela di Mardos Perez, de Cádiz?
Ele a conhecera quando era um aspirante no Royal Sovereign, durante uma visita de cortesia àquele porto. O almirantado lhe recusara permissão para casar, o pai também se opusera, quando, finalmente, conseguira superar as resistências, e obtivera os conhecimentos necessários, voltara correndo para descobrir que a moça ficara noiva de outro. Ela também era católica, pensou o almirante, triste, ainda a amando, depois de tanto tempo.
O fato de a moça ser católica deixa todo mundo enlouquecido, como a mãe de Struan, sou capaz de apostar. Como se isso fizesse alguma diferença. É verdade que a família de Consuela era boa, o que não acontece com a família dessa moça. E é verdade também que ainda a amo. Depois dela, não houve mais ninguém. Jamais desejei casar, não depois de perdê-la, por algum motivo não podia. O que me levou a empenhar tudo na marinha, o que evitou que minha vida fosse um total desperdício.
Será mesmo?
— Vou tomar outro porto — anunciou o almirante. — O que deve demorar de dez a quinze minutos. O que você pode fazer para assumir uma posição de vanguarda em dez ou quinze minutos?
41
Gornt desceu apressado os degraus do prédio da Struan e saiu para a noite, seguindo os outros convidados que deixavam a festa, numa conversa animada, agasalhados, segurando o chapéu contra o vento. Criados esperavam com lanternas para guiar alguns até suas casas. Depois de um boa-noite polido, mas apressado, ele foi para o prédio ao lado, o da Brock. O guarda, um sique alto, de turbante, bateu continência, observou-o subir a escada de dois em dois degraus e ir bater na porta de Norbert Greyforth.
— Quem é?
— Sou eu, senhor, Edward. Desculpe, mas é importante.
Houve um resmungo irritado, e depois a tranca foi aberta. Norbert tinha os cabelos desgrenhados, usava um camisolão, touca e meias de dormir.
— O que aconteceu?
— Struan. Ele acaba de anunciar que daqui por diante vai empenhar a Casa Nobre no embargo de todas as armas e de todo o ópio no Japão, ordenar a mesma coisa no comércio com a China, e por toda a Ásia.
— O que é isso? Uma piada?
— Não, Sr. Greyforth, não é uma piada. Foi durante a festa... o que ele disse na presença de todos, há poucos minutos, Sir William, a maioria dos embaixadores estrangeiros, o almirante, Dmitri... as palavras exatas de Struan, senhor:
Norbert começou a rir.
— Entre. Isso merece uma comemoração. Ele acaba de liquidar a Struan. E nos transformar na Casa Nobre.
Ele estendeu a cabeça para o corredor e chamou seu empregado número um.
— Lee! Champanhe, depressa! Entre, Edward, e feche a porta. Está ventando, e faz bastante frio para congelar os ovos de um macaco de bronze.