— Ao negociar, seja paciente. Sempre pode reduzir o preço, mas nunca pode tornar a subi-lo. Outra coisa: nunca tenha medo de rir, chorar, gritar ou fingir que vai embora.

Agora, ele disse:

— Pedindo dez, duvido que Mukfey queira reduzir abaixo de três.

— Meio já é muito alto.

Se tivesse uma espada, ele poria a mão no punho e diria: “Três ou corto sua cabeça asquerosa!” Em vez disso, balançou a cabeça, com um ar de tristeza.

— Tem toda razão.

Hiraga começou a se levantar.

— Talvez meus superiores concordem com um.

Hiraga já estava quase na porta.

Sinto muito, shoya, mas eu ficaria constrangido se tentasse barganhar tão barato um...

— Três!

O shoya ficara vermelho. Hiraga tornou a sentar. Demorou um pouco a se ajustar ao novo mundo e só depois disse:

— Tentarei fazer o acerto em três. Estes são momentos difíceis. Acabo de saber que há fome na minha aldeia, em Choshu. Terrível, neh?

Ele viu os olhos do shoya se contraírem.

— É, sim, Otami-sama. Muito em breve haverá fome por toda parte, até mesmo aqui.

Hiraga balançou a cabeça.

— Sei disso.

Ele esperou, deixando que o silêncio se tornasse opressivo. Mukfey explicara o valor do silêncio na negociação, que uma boca fechada no momento oportuno faz com que o oponente se sinta nervoso — pois a negociação é uma luta como qualquer outra — e obtém concessões que você nunca sonharia em pedir.

O shoya sabia que se encontrava acuado, mas ainda não determinara qual a extensão da armadilha, nem o preço que teria de pagar. As informações que recebera até agora valiam dez vezes mais que aquela quantia. Mas seja cauteloso, esse homem é perigoso, esse Hiraga Otami-sama aprende muito depressa, pode ou não estar dizendo a verdade, pode ou não ser um mentiroso. De qualquer forma é melhor ter um samurai astuto do seu lado do que contra.

— Nos tempos difíceis, amigos devem ajudar amigos. É possível que a Gyokoyama possa arrumar um pequeno crédito para ajudar. Como já falei antes, Otami-sama, seu pai e a família são clientes respeitados e valiosos.

Hiraga reprimiu as palavras iradas com que, em circunstâncias normais, teria reagido a tratamento tão condescendente.

— Seria esperar demais — disse ele, tateando o caminho naquele novo mundo de lucro e perda... o lucro de uma pessoa é o prejuízo de outra, explicara Mukfey muitas vezes. — Qualquer coisa que a grande Gyokoyama puder fazer contará com meu reconhecimento. Mas a rapidez é muito importante. Posso ter a certeza de que eles compreenderão isso?

— Seria imediato. Providenciarei tudo.

— Obrigado. Talvez até eles considerem um crédito substancial, talvez um empréstimo direto, quem sabe de um koku... — Ele percebeu o brilho de raiva nos olhos, controlado no mesmo instante, e se perguntou se não teria ido longe demais. — ...por serviços prestados pela família.

Outro silêncio, e depois o shoya disse:

— No passado... e no futuro.

Os olhos de Hiraga se tornaram tão frios quanto os do shoya, embora sua boca também sorrisse. E ainda no novo mundo, não sacou o pequeno revólver que agora sempre carregava, não abriu um buraco nele por sua grosseria.

— Claro. — Uma pausa, e Hiraga acrescentou, a voz suave: — Até depois de amanhã, neh?

O shoya acenou com a cabeça, fez uma reverência.

— Até lá, Otami-sama.

Outra vez na rua, oculto pela noite, Hiraga permitiu que seu triunfo se elevasse com sua alma. Um koku inteiro e os créditos, agora só precisava imaginar como trocar os três koku que o gai-jin Mukfey não pedira, nem precisava, em arroz de verdade, ou dinheiro de verdade, que também pudesse enviar para o pai.

Tanto por tão pouco, pensou ele, exultante, ao mesmo tempo em que se sentia conspurcado, precisando de um banho.

Ah, almirante — disse Malcolm Struan —, podemos ter uma conversa em particular?

— Pois não, senhor.

O almirante Ketterer levantou-se, um dos vinte convidados ainda à mesa na sala grande do prédio da Struan, saboreando o porto, que Angelique deixara, antes de se retirar. Ketterer usava o uniforme para a noite, calça até os joelhos, meias brancas de seda, fivelas de prata nos sapatos, mais rubicundo do que o habitual, depois de devorar uma sopa hindu com caril, peixe grelhado, uma porção dupla de rosbife, pastelão de Yorkshire com batatas assadas, legumes importados da Califórnia, um bolo de galinha e faisão, pedaços de salame de porco fritos, seguindo-se uma torta de maçã seca californiana, com bastante do agora famoso creme da Casa Nobre, e, para encerrar, o rerebit, queijo derretido com cerveja e servido sobre torradas. Champanhe, xerez, clarete — Château Lafite de 1837, o ano em que a rainha Victoria subira ao torno —, porto e madeira.

— Bem que estou precisando de respirar um pouco de ar fresco —acrescentou o almirante.

Malcolm seguiu à frente para as portas laterais de vidro, a boa comida e o vinho amortecendo a dor. Fazia um pouco de frio lá fora, mas era revigorante, depois do ar abafado na sala.

— Charuto?

— Obrigado.

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