E ele lera: Se Hiraga estiver com você, diga a ele que sua família se encontra numa situação difícil, a mãe está doente, eles não têm dinheiro nem crédito. Se de tiver condições de mandar algum, ou arrumar um crédito, salvará vidas... mas é claro que o pai dele jamais pedirá. Diga-lhe, também, que sua futura esposa ainda não chegou aqui, e que seu pai teme pela segurança dela.
Não há nada que eu possa fazer por eles agora, pensou Hiraga, aproximando-se do refugio na aldeia, outra vez angustiado. O vento da noite aumentou, agitando os telhados de colmo, mais frio do que antes. Não há nada que eu possa fazer, o sórdido dinheiro! Akimoto está certo. Devemos executar o plano de Ori. Uma noite como esta seria ideal. Duas ou três cabanas incendiadas e o vento sopraria as chamas de casa em casa, provocando um grande incêndio. Por que não esta noite? Assim, os sórdidos gai-jin teriam de embarcar em seus navios, e iriam embora Ou será que não? Não estarei apenas me iludindo, e nosso karma é ser dominado por eles?
O que fazer?
Katsumata sempre disse: Quando em dúvida, aja!
Sumomo? A caminho de Iedo? Sua pulsação acelerou, mas nem mesmo a lembrança dela removeu o remorso por sua família. Devemos casar agora, casar aqui, enquanto há tempo? É impossível voltar para casa, a viagem levaria meses, e é vital continuar aqui, o pai compreenderá.
Ou será que não? É mesmo vital ou apenas tento me enganar? E por que Katsumata mandou Sumomo ficar junto de Yoshi? Ele não a arriscaria por nada.
Nada! Eu não sou nada. Do nada para o nada, fome de novo, sem dinheiro, sem crédito, sem qualquer meio de ajudar. Sem sonno-joi, não há nada que possamos fazer...
E, de repente, foi como se uma pele que encobria parte de sua mente se desfizesse, e ele recordou Jamie explicando alguns aspectos dos negócios dos gai-jin que o haviam chocado. Momentos depois, Hiraga bateu de novo na porta do shoya, e sentou-se à sua frente.
— Shoya, achei que deveria mencionar, para que possa se preparar. Creio que persuadi o mestre em negócios dos gai-jin a recebê-lo em sua mansão, depois de amanhã, pela manhã, para responder a perguntas. Serei seu intérprete.
O shoya agradeceu, e se inclinou para ocultar sua intensa satisfação. Hiraga continuou, a voz suave:
— Jami Mukfey me disse que era um costume gai-jin cobrar um pagamento, por isso e por todas as outras informações que já lhe forneceu. O equivalente a dez koku.
Ele enunciou a quantia espetacular como se fosse uma ninharia, e viu o shoyn empalidecer, mas não explodir, como esperava, por ouvir tamanha mentira.
— Impossível! — disse o shoya, a voz estrangulada.
— Foi o que eu disse a ele, mas Mukfey insistiu que você, como homem de negócios e banqueiro, compreenderia como suas informações eram valiosas, e que até consideraria a possibilidade... — Mais uma vez Hiraga fez um esforço para se controlar. —... de ajudá-lo a começar um negócio, o primeiro de seu tipo, ao estilo gai-jin, para negociar com outros países.
Não chegava também a ser uma mentira total. McFay dissera-lhe que teria interesse em se encontrar e conversar com um banqueiro japonês — Hiraga exagerara a importância do shoya e sua posição na Gyokoyama — que mais ou menos qualquer dia seria conveniente, com um aviso prévio de um dia, e que haveria muitas oportunidades para cooperação.
Ele observou o shoya, exultante ao ver tanta transparência, o homem visivelmente excitado pelas oportunidades potenciais de usar os conhecimentos de Mukfey para o lucro e ser o primeiro a realizar um negócio assim.
— Muito importante ser o primeiro — explicara Mukfey. — Seu amigo japonês compreenderá isso, se for de fato um homem de negócios. É fácil para mim ajudá-lo com os nossos negócios com seda e fácil também para seu amigo japonês fazer a mesma coisa com outros produtos e conhecimentos japoneses.
Hiraga precisara fazer um tremendo esforço para compreender o que o homem dizia. Deixou agora o shoya sonhar e se preocupar por um momento, antes de acrescentar:
— Embora eu não entenda as questões de negócios, shoya, talvez consiga reduzir esse preço.
— Se conseguisse isso, Otami-sama, agradaria muito a um pobre velho, um mero servidor da Gyokoyama, pois eu teria de suplicar a permissão de meus superiores para pagar qualquer coisa.
— Talvez eu possa reduzir para três koku.
— Meio koku talvez seja possível.
Hiraga censurou a si mesmo. Esquecera a Regra de Ouro Número Um, como Mukfey a chamara: