— E Hinodeh? — indagou Meikin, que possuía a metade do contrato. Quando Hinodeh a procurara pela primeira vez, ela a encaminhara para uma prima, a mama-san de outra casa que possuía. Mais tarde, por acaso, soubera do pedido estranho e heterodoxo de Raiko para um tipo especial de moça. Fora fácil acertar tudo, pois Raiko era uma velha amiga, conhecida ao longo dos anos, merecedora de sua confiança, desde o tempo em que eram maiko, em que eram cortesãs. — O arranjo continua a ser satisfatório?

— Tenho outro pagamento para você, embora o homem esteja atrasado.

Meikin riu.

— Não estou surpresa. Você é uma maravilhosa negociadora.

Ela fez uma reverência em agradecimento.

— Ele promete uma quantia maior dentro de poucos dias. Talvez mais brincos.

— Ah! — Meikin vendera os outros, com grande lucro. — Esse negócio tem sido bastante satisfatório.

A entrada que o cliente pagara pelo contrato de Hinodeh fora mais do que suficiente para absorver todos os custos pelo menos por um ano.

— Como ela está?

Raiko relatou o primeiro encontro e os subsequentes, a outra mulher demonstrando o maior interesse.

— Ela tem toda razão em chamá-lo de animal — comentou Meikin.

Ele não é tão mau assim. Acho que a doença o deixa enlouquecido de vez em quando. Pelo menos Hinodeh conhece o pior e aceita que o homem é seu karma.

— Posso perguntar se ainda não há sinais?

— Nenhum, absolutamente nenhum. Mas todos os dias ela me faz examinar partes que não pode ver pessoalmente, nem com um espelho.

— É estranho, Raiko-chan. — Meikin ajeitou uma travessa nos cabelos. — Quando e se aparecer alguma coisa que não possa ser oculta... ela vai procurar a faca?

Raiko deu de ombros.

— Nunca se pode saber com certeza.

— Por acaso ela lhe contou por que aceitou esse karma?

— Não. Gosto dela, e posso ajudar, mas apenas um pouco. Mas é muito estranho ela nada nos contar, neh?

Raiko tomou um gole do conhaque, cativada pelo calor interior, e o prazer excepcional de receber sua amiga mais antiga e de maior confiança. As duas haviam sido inseparáveis quando maiko, amantes na juventude, e sempre trocado confidências... as confidências seguras.

— Esta noite ele a visita. Se desejar, poderá observá-los por algum tempo.

Meikin riu.

— Há muito que já perdi o interesse e excitamento pelas atividades dos outros, vigorosos e ardentes... até mesmo dos bem-dotados gai-jin.

Ela sentia-se feliz demais pela companhia da velha amiga para contar a história triste de Gekko e Shin Komoda, que insistira em saber, antes de mandá-la para Iocoama.

Quando Hinodeh morrer, Raiko-chan, eu lhe direi tudo, e poderemos partilhar uma lágrima pelos pesares que nós, mulheres, temos de suportar. Até lá, o segredo de Hinodeh estará seguro, como combinamos, o nome de seu filho seguro, e também o lugar para onde foi enviado. Ela sentiu um calor percorrer seu corpo, adorando os segredos e o jogo da vida.

— Portanto, Hinodeh está assentada. Ótimo. E agora?

— Agora — disse Raiko, baixando a voz —, posso ter informações importantes sobre os planos de batalha dos gai-jin.

A cor aumentou no rosto de Meikin, que se tornou tão tensa quanto a outra mulher.

— Contra Iedo?

— Isso mesmo.

— Pode ser uma informação valiosa, mas seria um conhecimento perigoso... perigoso demais.

— Concordo, e ainda mais perigoso para aproveitar, embora de valor excepcional para a pessoa correta.

Meikin removeu uma gota de conhaque, que poderia passar por transpiração.

— E depois que tal conhecimento é comprado, provado ser correto ou incorreto, cabeças têm o hábito de rolar.

— É verdade.

Raiko compreendia o perigo, mas sentia-se mais excitada do que em qualquer outra ocasião nos últimos anos. Nunca participara do fluxo da política em Iedo, mas a proximidade de Hiraga, as informações sobre os shishi que obtivera por seu intermédio — e os segredos sobre ele e Ori que o shoya lhe revelara — haviam aguçado seu apetite. Isso e mais seu relacionamento com Furansu-san, sabendo por ele sobre os gai-jin, paradoxalmente a fonte de toda a sua riqueza, e ao mesmo tempo os inimigos de sua sagrada terra dos deuses. E também por causa de sua repulsa ao Bakufu e Anjo, que haviam assassinado outra velha amiga, Yuriko, mama-san da casa dos Quarenta e Sete Ronin, por ter abrigado alguns shishi.

Ela estremeceu ao pensamento de sua própria cabeça adornando um chuço, dominada pelo medo, mas também experimentando um estranho êxtase. Yuriko já fora imortalizada nas gravuras de ukiyo-e do mundo flutuante, seu nome o novo predileto das gueixas, e muito em breve haveria uma peça apresentando-a como heroína.

— Você tem razão — sussurrou ela —, mas certas informações podem valer o risco. E se... se eu tivesse um conhecimento secreto do que... do que altas autoridades planejam em segredo contra os gai-jin, poderia também aproveitar, em benefício mútuo.

O suor se acumulara na beira de sua peruca requintada. Ela removeu-o com um papel de seda rosa.

— Está quente, neh?

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