Tudo foi feito depressa, a mesa se encontrava limpa e perfeita, os hálitos das duas purificados com ervas, antes do shoya entrar e fazer uma reverência.

— Por favor, damas, peço desculpas — disse ele, com uma ansiedade inconveniente, ajoelhando-se. — Por favor, perdoem meus péssimos modos, chegando sem marcar encontro, mas queria prestar minha homenagem a uma figura tão augusta, e dar as boas-vindas à minha aldeia.

Ambos ficaram surpresas por ele parecer tão solene, já que aquela não era uma ocasião formal. Meikin nunca o encontrara antes, mas seu contato na Gyokoyama o mencionara, garantindo que se tratava de um homem de integridade. Por isso, sua resposta foi tão polida e entusiástica quanto convinha a uma pessoa eminente da maior cidade do mundo, cumprimentando-o pela situação da Yoshiwara, e o pouco que vira da aldeia.

— É um homem de grande reputação, shoya.

— Obrigado, obrigado.

— Chá ou saquê? — perguntou Raiko.

Ele hesitou, fez menção de falar, parou. O clima na sala mudou. Raiko rompeu o silêncio:

— Por favor, shoya, desculpe-me, mas qual é o problema?

— Sinto muito... — Ele olhou para Meikin. — Sinto muito, dama, é uma cliente muito prezada por nossa companhia... Eu...

O shoya enfiou a mão trêmula na manga, tirou um pedaço de papel, estendeu para ela. Meikin contraiu os olhos.

— O que é isto? O que diz aqui? Não consigo ler uma escrita tão pequena.

— É uma men... uma mensagem de pombo-correio.

O shoya tentou falar de novo, não foi capaz, apontou para o papel, atordoado.

Sobressaltada, Raiko pegou-o, aproximou-o da luz. Seus olhos correram pela escrita pequena. Ela empalideceu, ficou tonta, quase desfaleceu, arriou sobre os joelhos.

— Diz aqui: Uma tentativa de assassinato contra lorde Yoshi, ao amanhecer, na aldeia Hamamatsu, fracassou. A assassina shishi solitária foi morta por ele. A dama Koiko também morreu na luta. Comunique nossa grande tristeza à casa a Glicínia. Mais informações assim que for possível. Namu Amida Butsu...

Meikin também empalideceu. Balbuciou “Koiko morta?”, sem que nenhum som saísse.

— Deve ser um engano! — exclamou Raiko, angustiada. — Só pode ser! Koiko morta? Quando aconteceu? Não há data! Shoya, como... Deve ser mentira, só pode ser mentira...

— Sinto muito, mas a data está em código no alto — murmurou ele. Aconteceu ontem, perto do amanhecer. Em Hamamatsu, uma estação de posta na Tokaidô. Não há engano, dama, sinto muito.

Namu Amida Butsu! Koiko? Koiko morta?

Meikin fitou-a, as lágrimas escorrendo pelas faces, e desmaiou.

— Criadas!

Elas vieram correndo, trouxeram sais de cheiro e toalhas molhadas, cuidaram de Meikin e de Raiko, que tentava recuperar o controle, a fim de determinar como aquilo a afetaria. Pela primeira vez não tinha certeza se devia continuar a confiar em Meikin, ou se a amiga se tornara um risco, e devia ser evitada.

O shoya continuava ajoelhado, imóvel. Fora necessário — e ainda era — que ele fingisse estar assustado e consternado por ser o portador de más notícias, mas no fundo sentia-se contente por estar vivo para testemunhar aqueles acontecimentos espantosos.

Não mostrara a segunda mensagem. Era só para ele, em código, e dizia: Assassina era Sumomo. Acredita-se que Koiko estava implicada na conspiração, foi ferida com shuriken e depois decapitada por Yoshi. Prepare-se para encerrar as contas de Meikin. Evite mencionar Sumomo. Proteja Hiraga como um tesouro nacional, suas informações são de valor inestimável. Pressione-o por mais, sua família está sendo refinanciada, como foi combinado. Solicitamos com urgência os planos de guerra dos gai-jin, a qualquer custo.

No momento em que recebera a mensagem, ele verificara em seus livros as contas de Meikin, calculando o que sua sucursal lhe devia, embora conhecesse a quantia com precisão. Não precisava se preocupar com essa parte. Quando ela fosse despachada para o outro mundo por lorde Yoshi, ou se conseguisse escapar da armadilha, de qualquer forma o banco lucraria. Se ela morresse, outra mama-san tomaria seu lugar, e usariam o que restasse de sua riqueza para financiar a substituta. A Gyokoyama monopolizava todas as operações bancárias na Yoshiwara, uma imensa e permanente fonte de receita.

Como a vida é irônica, pensou ele, especulando o que aquelas duas pensariam se conhecessem o motivo para o controle indissolúvel da Gyokoyama. Um dos maiores segredos da zaibatsu era o fato de ter sido fundada não apenas por uma mama-san, mas também uma mulher de gênio.

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