— Não tão quente quanto o fogo em que poderíamos nos meter.

— Quanto valeria o dia inicial do ataque... e o plano de batalha dos gai-jin?

Furansu-san lhe dera naquela manhã detalhes mais do que suficientes para tentar até o mais cético dos compradores a ser generoso.

Meikin sentiu o coração bater forte. Já esperava que o convite de Raiko seria para tratar de alguma coisa assim. Durante os últimos dois anos, ela insinuara indiretamente o potencial, estimulada pelo sensei Katsumata, para quem qualquer informação sobre os gai-jin era valiosa. E também porque, pouco tempo antes, houvera instruções secretas a todos os espiões do Bakufu, com promessas de ricas recompensas, para se concentrarem em Iocoama, e descobrirem os segredos dos gai-jin, e quem andava fornecendo ao inimigo informações proibidas sobre as coisas japonesas. O fato de Raiko ter feito o primeiro movimento ostensivo era crucial; na verdade, era a única pessoa em quem podia confiar num jogo tão arriscado.

— Quando será o ataque?

— Seria possível obter algum segredo importante para os gai-jin, como parte da troca?

Meikin acomodou-se confortável, pensou por um longo tempo.

Com toda certeza, Raiko merecia toda confiança... até sua vida ser ameaçada. E também não restava a menor dúvida de que um canal para informações, numa base contínua, seria valioso, não apenas pelo dinheiro, mas ainda pela causa — sonno-joi — que ela apoiava com todo entusiasmo. E também porque podia ser usado para abastecer os gai-jin com informações falsas, fabricadas com o maior cuidado.

— Raiko, minha velha amiga, não tenho qualquer dúvida de que o tairo Anjo e até Yoshi pagariam muito bem para conhecer essas datas, entre outros detalhes, mas é muito difícil, infelizmente, encontrar um meio de pôr as informações nas mãos deles, e o dinheiro nas nossas, sem comprometer qualquer das duas.

— Conhaque, Meikin-chan? — Raiko serviu, tonta de excitamento. — Se há alguém que pode resolver esse problema, é você.

As duas avaliaram uma à outra, e sorriram.

— Talvez.

— Tenho certeza. E, agora, talvez já seja o suficiente, por enquanto. Podemos continuar mais tarde, ou amanhã, se assim desejar. Posso planejar sua diversão noturna, se não estiver cansada?

— Obrigada. Não, não estou cansada. A barca que me trouxe de Iedo é confortável e não estava muito cheia, o mar se manteve sereno, e minhas criadas providenciaram para que o capitão atendesse a todos os meus desejos.— Meikin chegara aos cais da aldeia pouco antes do anoitecer. — Posso perguntar o que sugere?

— Temos gueixas, mas não à altura de seus padrões. Há alguns jovens que podem ser adequados. — Os olhos de Raiko faiscaram com seu sorriso, recordando os bons tempos da juventude. — Ou talvez uma maiko?

Meikin riu, tomou outro gole de conhaque.

— Isso seria uma diversão agradável, e me lembraria dos velhos tempos Raiko-chan. Ela me ajudará a pensar, me ajudará a verificar se posso lhe fornecer o que precisamos. Boa idéia. E concordo que já falamos sério o bastante por enquanto. Vamos conversar agora sobre os tempos áureos, como andam os negócios, e como vai seu filho.

— Ele está bem, ainda subindo na escada da Gyokoyama.

— Posso interceder junto a eles... embora sem dúvida isso seja desnecessário. Um excelente banco, o melhor, obtenho os juros mais altos, e meus depósitos são diversificados, como segurança... a fome se aproxima, e por isso tenho investido muito no arroz futuro. Seu filho tem vinte e quatro anos, neh?

— Vinte e seis. E sua filha?

— Graças a todos os deuses ricos e pobres, consegui casá-la com um goshi, e assim seus filhos serão samurais. Ela já tem um menino, mas o marido é muito dispendioso! — Meikin balançou a cabeça de um lado para outro, depois riu. — Mas não devo me queixar. Apenas converto os pingos imprestáveis de uns poucos velhos ricos numa herança que nunca sonhamos possível. Neh?

O som de passos misturou-se ao das risadas. Uma batida na porta de shoji.

— Ama?

— O que é, Tsuki-chan?

A maiko entreabriu a porta, de joelhos, fitou-as com um sorriso inocente.

— Sinto muito, mas shoya Ryoshi, o ancião da aldeia, suplica ser recebido, e ser seu hóspede.

Raiko franziu as sobrancelhas.

— Meu hóspede?

— Isso mesmo, ama.

Meikin também franziu o rosto.

— Ele costuma saudar visitantes?

— Só os mais importantes, e sem dúvida você é importante, e sua presença uma honra para todos nós. Com toda certeza, ele foi informado de sua chegada. Sua rede de informações é ampla, Meikin-chan, e ele merece confiança absoluta... e ainda por cima é o chefe da Gyokoyama em Iocoama. Vamos recebê-lo?

— Está certo, mas apenas por um momento. Fingirei uma dor de cabeça e, depois, poderemos continuar nossa conversa até a refeição noturna.

— Pequena — disse Raiko —, traga o shoya aqui, mas antes avise às criadas para providenciarem chá fresco e saquê quente... e tirarem estes copos, esconderem meu conhaque. Meikin-chan, se ele soubesse que tenho uma garrafa, seria uma presença diária!

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