A mão de Malcolm procurou-a. Ela reagiu. Apanhado de surpresa, ele virou-se para Angelique, prendeu a respiração, quando uma dor intensa saltou para o fundo de seus olhos. Depois a dor passou, ele exalou.

— Je t’aime, chéri. — Ela inclinou-se para beijá-lo, e sussurrou entre os beijos: — Não, não se mexa, continue deitado assim, fique quieto.

Angelique soltou uma risadinha e acrescentou, a voz rouca de desejo:

— Fique imóvel, mon amour.

Em momentos, a paixão dominou-o. Excitado e vidrando, tudo esquecido, ora a sensualidade partilhada, ora os movimentos bem lentos, ora mais rápidos, outra vez lentos, mais profundos, a voz gutural de Angelique a instá-lo, ele reagindo, e continuando sempre, sem parar, cada vez mais forte, todas as suas glândulas, músculos e anseio se concentrando, até que ela ficou próxima, muito próxima, se afastando, próxima de novo, enlaçando-a, ajudando-a, arremetendo, até sentir o corpo de Angelique se desvanecendo, seu peso desaparecer, tudo sumir, e ela arriou por cima dele, com seus espasmos e gritos, fazendo com que a penetrasse ainda mais fundo, o corpo de Malcolm se comprimindo contra o dela por vontade própria, descarregando por vontade própria, até que passou o último espasmo, frenético, bem-vindo, e todos os movimentos cessaram.

Apenas respirações ofegantes se misturavam, o suor se misturava, os corações se misturavam.

Depois de algum tempo, Malcolm se tornou consciente. O peso adormecido de Angelique em seu peito não era nada. Ele continuou deitado assim, em espanto, vibrante, eufórico, um braço a mantê-la segura na posição, sabendo que ela era tão bela quanto uma esposa podia ser. A respiração de Angelique esfriava suas faces, longa, lenta, profundamente. Ele tinha a cabeça lúcida, uma visão clara do futuro, sem qualquer resquício de dúvida. Com uma segurança absoluta de que acertara ao casar com ela, certo de que agora poderia encerrar o conflito com sua mãe, e juntos destruiriam os Brocks, assim como ele acabaria com Norbert, acabaria com as vendas de ópio e canhões, persuadiria Jamie a permanecer e dirigiria a Struan como devia ser dirigida... como o tai-pan gostaria que fosse dirigida. Até que, com o passar do tempo, cumpriria seu dever, e faria com que a Casa Nobre voltasse a ser a primeira na Ásia, para entregá-la ao próximo tai-pan, o primogênito, a quem dariam o nome de Dirk, o primeiro de muitos filhos e muitas fílhas.

Por quanto tempo ficou assim, ele não sabia, com uma suprema confiança, transbordando de alegria e êxtase, seus braços a envolvê-la, amando-a, aspirando sua respiração, mais feliz do que jamais se sentira, do que jamais poderia se sentir, seus lábios dizendo a ela que a amava, a mente o levando ao sono, em bem-aventurança, para longe da recordação daquela terrível, maravilhosa, angustiante suprema explosão de imortalidade, que parecera dilacerá-lo por completo.

45

Quarta-feira, 1O de dezembro:

Ao amanhecer cinzento, Jamie McFay subiu apressado do cais da cidade dos bêbados, e virou a esquina. Avistou Norbert e Gornt na terra de ninguém, esperando onde deveriam esperar, notando sem interesse a pequena valise na mão de Gornt, que devia conter as pistolas de duelo que haviam combinado. Além dos três — e enxames de moscas —, o vazadouro fétido e cheio de mato se encontrava deserto. Ele não cruzara com ninguém, exceto bêbados encolhidos e roncando nos cantos de barracos, estendidos em bancos, ou no chão. E não reparara neles.

— Desculpem — balbuciou ele, esbaforido. Como os outros dois, também usava uma sobrecasaca e chapéu, contra o ar frio e úmido do amanhecer. — Lamento o atraso, mas...

— Onde está o tai-pan da Casa Maldita? — indagou Norbert, grosseiramente, empinando o queixo. — Ele é covarde ou o quê?

— Vá se foder! — berrou Jamie, o rosto tão branco quanto o céu nublado. — Malcolm morreu! O tai-pan está morto!

Ele viu-os se desmancharem em espanto e também ainda não podia acreditar.

— Acabo de voltar do navio. Fui buscá-lo antes do amanhecer, pois eles... ele passou a noite a bordo do Prancing Cloud. Estava...

As palavras lhe faltaram. As lágrimas afloraram, e ele recordou toda a cena, Strongbow na amurada, pálido e assustado, gritando, antes mesmo que ele subisse a bordo, que o jovem Malcolm morrera, que mandara seu cúter buscar um médico, mas o tai-pan já estava morto.

E depois a subida pelos degraus. Notara Angelique encolhida num canto do tombadilho superior, envolta por cobertores, o primeiro-piloto ao lado, mas passara apressado pelos dois, rezando para que não fosse verdade, para que fosse apenas um pesadelo, antes de descer.

Encontrara o camarote todo iluminado. Malcolm estava deitado de costas no beliche. Os olhos fechados, sereno na morte, sem preocupações, um lençol levantado até o queixo. Ocorrera a Jamie que o amigo parecia como nunca o vira antes, numa paz suprema.

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