Ele viu Malcolm passar o braço em torno da moça, que se aconchegou ainda mais, e seu coração se confrangeu pelos dois. Era difícil crescer, difícil ser o tai-pan da Casa Nobre, ou quase o tai-pan, com um avô assim... e com uma mãe assim. Decidido, ele atravessou o tombadilho superior e olhou na direção do mar. O primeiro-piloto seguiu-o. Ambos levantaram os olhos para as velas recolhidas, onde se empoleiravam umas poucas aves marinhas, gritando. Uma delas mergulhou lá de cima, e eles a acompanharam até que desapareceu na escuridão, para a pescaria noturna. Outra seguiu-a, também silenciosamente.

Malcolm e Angelique não haviam saído do lugar, perdidos em sua serenidade. A ampulheta de meia hora na ponte de comando se esvaziou. No mesmo instante, o oficial de vigia virou-a, e tocou seis badaladas. Onze horas da noite. O som foi repetido por outros navios na baía. Os dois saíram de seu devaneio.

— Já é hora de descer, Angel?

— Daqui a pouco, meu amado. Chen disse que nos avisará quando o camarote ficar pronto.

Ela pensara várias vezes nisso desde que Malcolm indagara se não gostaria de casar hoje... Angelique sorriu, beijou-o no queixo, preparada, em paz.

— Sabe, meu querido marido, prometo que teremos uma vida maravilhosa. Não sentirá mais dor, e vai recuperar toda a sua forma física. Promete?

— Mil vezes... minha esposa querida.

Mais aves marinhas alçaram vôo do cordame. Chen subiu e disse que tudo ja fora arrumado como o tai-pan ordenara. Malcolm declarou, em cantonês:

— Lembre-se de uma coisa: não acorde a tai-tai quando for me chamar. Tai-tai significava suprema do supremo, primeira esposa... que era a suprema lei dentro de qualquer casa chinesa, assim como o marido era supremo lá fora.

— Durma bem, amo, dez mil filhos, miss.

— Tai-tai — corrigiu Malcolm.

— Dez mil filhos, tai-tai.

— O que estavam falando, Malcolm? — indagou ela, sorrindo.

— Ele lhe desejava um feliz casamento.

Dohjeh, Chen — disse ela. Obrigada.

Chen esperou até que os dois se despedissem dos oficiais do navio e descessem, Malcolm usando apenas uma bengala, apoiando-se em Angelique com a outra mão. Ah, pensou ele, encaminhando-se para a passagem do castelo de proa, que todos os deuses, grandes e pequenos, protejam o amo, e lhe proporcionem uma noite que compense toda a dor, passada e futura, mas primeiro se lembrem de mim e de meus problemas, e expliquem ao ilustre Chen e à tai-tai Tess que nada tive a ver com esse casamento. Do tombadilho superior, Strongbow observou Chen descer.

— Todos os criados já foram deitar?

— Pusemos redes na sala de velas de boreste. Ficarão bem ali, a menos que enfrentemos uma tempestade.

— Ótimo. Não quer tomar seu chá agora, mister?

— Quero, sim, obrigado. Voltarei mais alerta.

O primeiro-piloto tinha naquela noite o turno de vigia de meia-noite às quatro horas da madrugada e desceu do tombadilho superior em passos ágeis. O camarote ficava na extremidade do corredor da popa. A porta estava fechada. Ele ouviu o barulho da tranca sendo empurrada. Sorrindo, assoviando silenciosamente uma jiga, ele seguiu para a cozinha.

Malcolm encostou-se na porta, palpitando de expectativa, determinado a andar sem ajuda até o leito nupcial. Angelique parara ao lado do beliche e o fitava. O camarote fora todo arrumado. E aquecido. A enorme mesa de jantar e as cadeiras eram presas no chão. Assim como o beliche espaçoso, também preso no chão, cabendo duas pessoas sem qualquer problema, outra das leis do tai-pan. Era alto, e a cabeceira se situava bem no centro da antepara da popa, com proteções de lona contra o balanço do navio, quando navegassem com todas as velas içadas. Agora, estavam dobradas. Havia a bombordo um pequeno banheiro e vaso sanitário, e a boreste um armário para roupas. De uma viga do teto pendia um lampião a óleo, projetando sombras agradáveis.

Os dois hesitavam, inseguros.

— Angel...

— O que é, chéri?

— Eu amo você.

— Também amo você, Malcolm. E me sinto muito feliz.

Ainda assim, nenhum dos dois se mexeu. O xale de Angelique caíra um pouco, revelando os ombros e o vestido verde-claro, de cintura alta, ao estilo Império, as dobras de seda se acumulando sob o busto, que subia e descia, no ritmo de seu coração. O vestido era a mais avançada haute couture, tirado do último número de L’Illustration enviado por Colette, ainda não em plena voga, ousado na sua simplicidade. Quando ela se apresentara para o jantar, os dois homens — Malcolm e Strongbow, como convidado — não puderam conter um murmúrio de admiração.

Os olhos dela eram espelhos dos olhos de Malcolm, e agora, incapaz de suportar a expectativa e a necessidade dele, que parecia se projetar, envolvê-la e sufocá-la. Angelique correu para seus braços. Ardente. O xale caiu no convés, sem ser notado. Um pouco tonta, ela sussurrou:

— Vamos, chéri...

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