Pegou-a pela mão e sustentou parte de seu peso. Fez outra prece silenciosa por ajuda, aniquilando o passado e o futuro, para se abandonar por completo ao presente, e conduziu-o para o beliche, determinada a ser tudo o que ele desejava e esperava. Desde a cerimônia súbita e inacreditável hoje, Angelique vinha planejando para aquele momento, para o seu papel, analisando suas próprias idéias e o que Colette contara sobre a maneira como algumas damas da corte se comportavam na primeira noite:
A impaciência de Malcolm era tremenda, as mãos enormes vagueavam por toda parte, os lábios se mostravam fortes e insistentes.
— Deixe-me ajudá-lo — murmurou ela, a voz rouca, também querendo começar logo.
Tirou a sobrecasaca dele, depois a camisa, teve um arrepio ao ver a extensão da cicatriz na cintura.
—
A paixão de Malcolm murchou, mas não o trovejar de seu coração. Todo instinto o levava a querer se enrolar com a camisa ou o lençol, mas forçou-se a não fazê-lo. A cicatriz era um fato de sua vida.
— Desculpe.
— Não tem de que se desculpar,
— Não pense mais nisso, minha querida. É
— Sei disso, meu querido. Foi uma tolice da minha parte.
Angelique continuou a abraçá-lo. Depois que a angústia por ele diminuiu, sentiu raiva de si mesma, removeu suas lágrimas — e, com elas, sua tristeza momentânea —, beijou-o às pressas, fingindo que nada acontecera.
— Sinto muito, meu querido, foi uma bobagem minha. E agora sente ali por um instante.
Malcolm obedeceu. Observando-o com os olhos meio fechados, mas brilhantes, ela soltou o cinto de seda, abriu os botões nas costas e deixou o vestido cair, como planejara. Ficou apenas com meia combinação e a pantalona. Ele estendeu os braços, mas Angelique riu, esquivou-se, foi até o baú em que estavam seu espelho, pomadas e perfumes. Sem qualquer pressa, passou perfume atrás das orelhas, nos seios, provocante e sedutora. Mas ele não se importou, fascinado por ela, que lhe explicara várias vezes, em palavras diferentes:
— Os franceses são diferentes de vocês, meu querido Malcolm. Somos francos sobre o amor, recatados, e ao mesmo tempo não recatados, o oposto dos ingleses. Achamos que o amor deve ser como uma refeição maravilhosa, uma emoção para os sentidos, todos os sentidos, e não da maneira como se ensina às nossas pobres irmãs inglesas e seus irmãos... uma coisa que deve ser feita depressa, no escuro, acreditando por algum motivo que o ato é sórdido, e os corpos vergonhosos. Vai ver só, quando casarmos...
E agora eram casados. Ela era sua esposa, e se mostrava coquete, para seu prazer, proporcionando-lhe intensa alegria e vibração. Graças a Deus por isso, pensou Malcolm, com um alívio monumental, pois se preocupara por semanas, recordando a moça da Yoshiwara, quando nada dera certo.
— Angel... — balbuciou ele, a voz rouca.
Tímida, ela tirou a pantalona e a anágua, foi até o lampião, abaixou o pavio, deixando apenas a claridade necessária, mais adorável do que Malcolm imaginara. — a visão de seu corpo nu era como um sonho, e ao mesmo tempo de uma realidade profunda e angustiante. Sem pressa, ela foi para o outro lado do beliche, deitou-se ao seu lado.
Sussurrando palavras de amor, as mãos tocando, explorando, a respiração de Malcolm pesada, seu corpo chegando mais perto, lábios quentes, beijos ardentes. As mãos de Angelique, hesitantes, sob um cuidadoso controle, também explorando, toda a sua mente concentrada na imagem de primeiro amor feliz e inocente que queria transmitir... ansiosa em agradar, mas também um pouco assustada.
— Oh, Malcolm... Malcolm...
Murmurando e beijando-o, amando-o profundamente, rezando para que fosse verdade o que Babcott dissera, em resposta às suas perguntas:
— Não se preocupe. Por algum tempo, ele não será capaz de montar a cavalo direito, nem poderá dançar uma polca da maneira correta, mas isso não importa, pois será capaz de guiar uma charrete, comandar um navio, dirigir a Casa Nobre, gerar muitos filhos... e ser o melhor marido do mundo...