Desolado, ele se afastou. Agora, apenas Jamie, Hoag e Skye continuavam com ela, no cais.
— E agora, Jamie? — indagou Angelique, dominada por uma profunda melancolia.
— Esperemos um minuto.
Como os outros, ele sentia que era parte de uma trapaça, mas ao mesmo tempo experimentava uma profunda emoção, dizendo a si mesmo que não era uma trapaça. Estou apenas ajudando um amigo, pensou ele. Prometi que guardaria sua retaguarda, e é o que estou fazendo. Mas também estou trapaceando, e detesto isso. Esqueça, você é o líder, tem de agir como tal.
— Capitão Strongbow, pode partir. Deus o acompanhe.
— Obrigado, senhor.
O cúter afastou-se, mergulhando entre as ondas, adquiriu velocidade. As gaivotas gritavam em sua esteira. Os quatro ficaram observando.
— Parece tão estranho — murmurou Angelique, chorando silenciosamente.
— É e não é. Não estamos errados, não é?
Mais uma vez, Jamie tomou a decisão por todos:
— Não, não estamos.
Ele pegou o braço de Angelique e levou-a para casa.
Pouco antes do anoitecer, Vargas bateu na porta da sala do
— O Sr. Gornt deseja vê-la, senhora.
— Agradeça, mas diga que não posso, talvez amanhã. Olá, Edward. Entre. Angelique foi sentar de novo numa das cadeiras de braço ao lado da janela, o dia lá fora escuro e chuvoso. Havia um vinho branco aberto, esperando no gelo, com um copo virado ao contrário no balde, gelando.
— Por favor, Sirva-se. Vai embarcar agora?
— Vou, sim. O tênder já está esperando. À sua saúde,
— E à sua. É o único passageiro?
— Não sei, — Ele hesitou. — Tem uma aparência maravilhosa,
— Lamentarei a sua partida. Talvez tudo esteja melhor quando voltar — murmurou Angelique, apreciando-o como antes. — Pretende retornar logo ou irá antes a Xangai?
— Saberei quando chegar a Hong Kong. Onde vai se hospedar lá? No Peak ou na Casa Grande dos Struans?
— Ainda não decidi... nem mesmo se irei.
— Mas... não vai ao funeral? — perguntou ele, confuso.
— Decidirei amanhã. — Ela queria deixá-lo em suspense, assim como a todos os outros, até mesmo Jamie. — O Sr. Skye me aconselha a permanecer aqui e não me sinto bem.
Angelique deu de ombros e reiterou:
— Decidirei amanhã. Tenho uma passagem reservada. Gostaria muito de estar com ele, preciso acompanhá-lo, mas se não for sepultado como desejava, como eu queria, então... então fracassei.
— Não fracassou para ele,
— E você também não vai me falhar, não é, Edward? Entregará minha carta a ela, fará tudo o que combinamos?
— Claro. Uma promessa é uma promessa. Uma questão de honra, madame.
Ele fítou-a nos olhos.
— E eu também fiz uma promessa, não é? Uma questão de honra. Amizade eterna.
A maneira como ela pronunciou as duas palavras era uma promessa e ao mesmo tempo, não era. Nem por sua própria vida, Gornt era capaz de interpretá-la agora, como fazia antes. No passado, saberia até que ponto aquela promessa o levaria. Agora, no entanto, havia uma barreira. Fico contente, pensou ele, pois se há uma barreira para mim, haverá também para todos os outros homens. Seis meses não constituem muito tempo para esperar e o momento será perfeito. Mas talvez ela não vá para Hong Kong. Como isso me afeta?
— Meus planos,
— Claro que sim, por favor. Eu bem que gostaria. Em todas as correspondências. Prometo que o manterei a par de meus planos.
Angelique abriu uma gaveta, tirou um envelope, endereçado à Sra. Tess Struan. Não estava lacrado.
— Pode ler.
— Obrigado,
Ela pegou o envelope de volta, mas não o lacrou, apenas enfiou a aba para dentro.
— Isso lhe poupará o trabalho de pôr no vapor para abrir, Edward.
Gornt riu.
— O que a leva a ter tanta certeza de que eu faria isso?
— Eu faria. Seria uma tentação grande demais. Mas, por favor, lacre o envelope antes de entregá-lo.
Ele acenou com a cabeça.
— Disse uma ocasião que sabia por que seu marido gostava de mim, porque eu seria um inimigo perigoso e um amigo ainda mais perigoso. Talvez isso se aplique também a você, Angelique.
— É possível. Estou tateando meu caminho neste novo mundo, Edward. Está repleto de dificuldades, de areia movediça. Mas vai me descobrir muito confiave depois que eu der minha palavra, como fiz neste caso. Não esqueça que sou francesa. — Um rápido sorriso. — Leia.
A carta dizia: