Fez uns poucos cortes e alterações, reescreveu tudo, assinando como o ministro de sua majestade britânica para o Japão. Releu mais uma vez. E agora ficou satisfeito. As principais mudanças haviam sido as seguintes: depois de É uma jovem admirável, ele cortara e qualquer coisa em contrário são mentiras espalhadas por canalhas, pois isso convidaria à indagação “que mentiras?” Acrescentara em seu lugar e a recomendo com vigor à sua benevolência. Depois de sepultado no mar, eliminara o como o avô, sem saber a verdade de tal alegação.

— Muito melhor — disse ele, em voz alta. — Tira toda a mordacidade.

Prefiro assim, eu a recomendo à sua benevolência, pensou ele, embora só Deus saiba o que essas duas acabarão fazendo uma à outra. Uma semana atrás eu teria apostado que Angelique não daria nem para a saída, mas agora não tenho certeza.

Satisfeito, ele abriu seu diário, e acrescentou o nome de Tess Struan à longa lista de cartas despachadas naquele dia pelo Prancing Cloud. Um registro na terça-feira, dia 9, atraiu sua atenção: “Malcolm Struan casou com Angelique Richaud a bordo da Pearl com a conivência de Ketterer.” Estava escrito em russo, assim como todo o diário — hábito de uma vida inteira, exigido por sua mãe russa — para mantê-lo desconhecido da maioria dos olhos, mas também para não perder a fluência. Isso o lembrou de uma coisa. Abriu o novo diário, para 1863, e fez um ponto de interrogação em 11 de janeiro, acrescentando uma anotação: Já devemos saber a esta altura se A está esperando ou não. Uma criança de Malcolm facilitaria bastante a vida de Angelique, pensou ele.

Decidira fazer o que pudesse para ajudá-la, por causa da dignidade que demonstrara no dia anterior, e no cais hoje, e também por causa do prazer que lhe proporcionara com todas as danças, risadas e jovialidade que trouxera para Iocoama, e porque era francesa, com a exuberância latente que as francesas possuíam, acima de todas as outras mulheres.

Sir William sorriu. Você é mesmo francesa, Angelique. E nós somos brirtânicos, mas não somos tolos... e é por isso que somos nós que dominamos o mundo, não os franceses.

— Phillip!

Seratard e André se encontravam na janela. O Prancing Cloud desfraldara os traquetes, as velas de mezena, os joanetes e os sobrejoanetes, e agora, com o vento de popa, disparava pelo estreito. Muitos outros também observavam, invejando o clíper, com ciúme, querendo navegar, possuir ou comandar um navio assim. Muitos especulavam sobre sua carga, sobre a moça que partiria no dia seguinte. Angel, um verdadeiro anjo, como a vida seria sem ela, e sobre o destino das cartas a bordo.

— O embaixador De Geroire vai concordar, Henri? — perguntou André.

— Vai, sim. Ele me deve muitos favores, nossa missão aqui se torna mais eficaz a cada dia, e o encontro particular com Yoshi, que você prometeu, e eu garanti a ele, está acertado. Ou não está?

— Deram-me a garantia — respondeu André, sentindo de repente a garganta ressequida. Raiko jurara que podia contar com isso, que os planos de batalha secretos que ele entregara já se encontravam nas cabeças de intermediários de confiança em Iedo, para negociação e recompensas. — Primeiro, Yoshi tem de voltar, Henri, depois podemos marcar uma data. Prometeram-me que ele fará uma visita à nave capitânia. Tenho uma reunião esta noite e o pagamento inicial acertará tudo.

— Mudei de idéia sobre o adiantamento do dinheiro. É melhor... — Seratard alteou a voz, pois André fez menção de protestar. — ...é melhor esperar. Já decidi que é melhor esperar!

Ele foi sentar à sua mesa, e gesticulou para que André sentasse no outro lado, não com raiva, mas com uma suavidade que não admitia oposição.

— Assim que eu tiver certeza que ele voltou, você pode pagar a esses... esses intermediários.

— Mas prometi que levaria o dinheiro esta noite e você concordou!

— Explique que não confio neles — disse Seratard, com um sorriso desdenhoso. — Deixe que provem sua boa fé. Eu estava falando que De Geroire a fará uma tutelada do Estado, André, assim o seu problema se torna uma questão de política de Estado.

Naquela noite André odiava Seratard, odiava-o porque era um homem perigoso, insidioso, sabia demais, recordava demais, e não tinha qualquer sentimento. Percebera que Seratard o observava atentamente, naquela manhã, ao desjejum.

— O que é, Henri?

— Nada. Há uma mancha em seu pescoço que não existia antes e me pergunto... Como se sente, André?

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