Angelique o vira. Quando o clíper foi tragado pela escuridão, ela fechou as cortinas e foi sentar à mesa. Seu diário estava aberto ali. Havia três cartas lacradas, prontas para seguirem pelo navio de correspondência: para a tia, tendo em anexo uma ordem de pagamento à vista, contra o Banco da Inglaterra, no valor de cinqüenta guinéus, a segunda para Colette, com uma ordem de pagamento de dez guinéus, as duas ordens providenciadas por Jamie, usando parte do dinheiro que Sir William lhe permitira manter. Pensara em usar uma das promissórias de Malcolm que encontrara na escrivaninha, pondo uma data anterior, e aproveitando O sinete no cofre, mas julgou que seria uma insensatez, pelo menos por enquanto. O dinheiro para a tia era apenas para ajudá-la e o de Colette serviria para comprar os melhores medicamentos para o momento do parto.

Posso ou não chegar lá a tempo, refletiu ela. Espero que sim.

A última carta deveria ser entregue em mãos. Dizia: Prezado almirante Ketterer: Sei que nos casamos graças à sua bondade. Agradeço do fundo do meu coração e juro que, qualquer que seja o poder que esta pobre mulher venha a ter no futuro, será usado para acabar com o comércio de ópio por parte da Struan e também para suspender a infame venda de armas para os nativos, como meu marido jurara fazer. Mais uma vez, agradeço, com toda a minha afeição sincera, Angelique Struan.

Assinar Angelique Struan muito a agradara. Os dois nomes harmonizavam-se com perfeição. Foi ótimo praticar a assinatura, a curva do “S” ajudando-a de certa forma a pensar.

Meu esquema com Edward... de onde saíram todas aquelas idéias sensacionais? É excelente... se ele fizer como eu quero. Deve convencer Tess de que não sou uma inimiga. Mas seu filho era seu filho, e eu não perdoaria, não se fosse meu filho, acho que não perdoaria.

O caminho à sua frente estaria coalhado de infortúnios, tanta coisa errada, tanta coisa podendo sair errada, André ainda é um cão subserviente, esperando para ser amordaçado ou repelido — na verdade, também há muitas coisas que podem sair certas —, o caixão correto se encontra a caminho, o de Malcolm pronto e à espera de amanhã, ainda posso viajar para Hong Kong pelo navio de correspondência, se quiser, tenho certeza que Edward quer casar comigo, pois ele, entre todas as pessoas, compreende que uma esposa rica é melhor que uma pobre, tenho as promissórias em branco de Malcolm, e o sinete de que ninguém mais sabe... e vinte e oito dias para esperar, não como da última vez, Santa Mãe, graças a Deus misericordioso... e como rezo por essa criança.

Ah, Malcolm, Malcolm, que vida boa teríamos, e eu cresceria sem precisar de momentos tão horríveis, juro que conseguiria.

Fazendo um esforço, ela se desvencilhou da melancolia e tocou a sineta em cima da mesa. A porta foi aberta sem uma batida polida, sem qualquer batida.

Miss?

Tai-tai, Ah Soh!

Miss tai-tai?

— Mande Chen vir até aqui, depressa.

— Comer aqui, lá embaixo, miss... miss tai-tai?

Angelique suspirou pelas manobras a que Ah Soh podia recorrer para não chamá-la diretamente de tai-tai.

— Escute, seu monte de bosta de burro — disse ela, suavemente —, sou mais forte do que você, em breve estarei pagando as contas, e vai sofrer então.

Ela sentiu-se feliz por ver a irritação nos olhos escuros. Como Malcolm explicara, falar com Ah Soh em inglês correto, que ela não entendia, em vez de pidgin, levava a criada a perder a pose. Ah, que lógica distorcida a dos chineses, pensou Angelique.

— Chen, depressa!

Ah Soh retirou-se, mal-humorada. Quando Chen entrou, Angelique comunicou que tinha uma carta para ser entregue na embaixada britânica. Ele acenou com a cabeça, sem comentários.

— Chen, Ah Tok doente, não doente, hem?

— Ah Tok doente, Ah Tok ir Hong Kong. — Chen apontou na direção do mar. — Junto com amo.

— Ahn...

Angelique experimentou um profundo alívio, desejou ter pensado nisso antes. Por várias vezes vira Ah Tok espreitando das sombras, os olhos escuros transbordando de ódio, a saliva escorrendo pelos cantos da boca. Ela entregou a carta para Ketterer.

— Vá Casa Grande, agora.

Ele olhou para o nome, fingindo ser capaz de ler a escrita dos bárbaros.

— Comer este lugar mesmo, hem?

Tai-tai comer este lugar mesmo, hem? Tai-tai!

Os olhos de Chen faiscaram. A boca sorriu.

Tai-tai, comer este lugar mesmo, hem? Tai-tai miss?

— Você também é um monte de bosta de burro. Talvez eu o dispense... não, isso seria gentileza demais. Pensarei a seu respeito mais tarde. — Ela sorriu. — Comer lá embaixo. Que comida ter?

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