Isso o levara em pânico ao espelho de seu quarto, apavorado com a possibilidade de o primeiro sinal da doença ter se manifestado. Desde que iniciara a acão com Hinodeh, tornara-se sensível demais à menor marca, pontada de dor e febre. Quase todas as noites ela o despia na luz, comentando o quanto gostava de contemplá-lo, tocando-o, massageando-o ou acariciando-o, os dedos e as mãos sempre sensuais, mas ainda assim tinha certeza de que ela procurava por sinais denunciadores.

— Nada ainda, nenhum sinal, graças a Deus! — murmurara ele para seu reflexo, os olhos úmidos de alívio ao constatar que a marca era apenas a picada de um inseto.

— André — acrescentou Seratard agora —, esta noite, ao jantar, devemos fazer planos com ela. Recomendei que ela, depois de se tornar tutelada do Estado, deve ficar na embaixada, e...

Uma batida na porta interrompeu-o.

— O que é?

Vervene abriu a porta.

— Uma mensagem de Vargas. Madame Struan lamenta, mas não se sente bastante bem para vir ao jantar.

Seratard disse, em tom ríspido:

— Se ela estava bastante bem para se despedir de um caixão, poderia pelo menos nos poupar o tempo. Obrigado, Vervene. — Para André, ele acrescentou: — Precisamos conversar com ela antes de sua partida.

— Eu a procurarei pela manhã. Não se preocupe. Mas há rumores de que ela pode adiar a partida. Hoag teria aconselhado a não fazer uma viagem marítima, por motivos médicos, e Heavenly Skye não esconde de ninguém sua oposição.

Seratard contraiu os lábios.

— Detesto aquele homem. Ele é vulgar, grosseiro e repulsivo, um típico britânico.

Angelique observava a partida do clíper da suíte do tai-pan, no segundo andar. Uns poucos transeuntes avistaram-na na janela, e seguiram adiante, apressados, molhados, gelados, especulando sobre o que lhe aconteceria. Um deles era Tyrer, que voltara ao cais, depois de entregar os despachos. Ela parecia muito solitária ali, fúnebre em seu vestido preto, nunca tendo usado preto antes, apenas as cores da primavera. Ele parou por um instante, tentado a procurá-la, a indagar se podia ajudar de alguma forma, mas decidiu não fazê-lo, ainda tinha muito trabalho pela frente, antes de seu encontro com Fujiko, um pagamento mensal a Raiko por “serviços passados na dependência da conclusão do contrato”, e ainda sua aula com Nakama, que tivera de ser adiada por causa de suas obrigações com Sir William.

Tyrer soltou um grunhido ao pensamento de todas aquelas frases e palavras que ainda queria traduzir, e a nova mensagem para Anjo, que Sir William deliberadamente mandara Nakama verter, não por confiar nele, mas para avaliar a reação de um japonês ao comunicado anglo-saxão, brusco, sem nada de diplomático. Ainda pior, estava atrasado em seu diário, e não tivera tempo de escrever a carta semanal para a família. Tinha de despachá-la pelo navio de correspondência, não importava o que acontecesse.

Na última correspondência, recebera uma carta da mãe, informando que o pai estava doente:

...nada grave, Phillip querido, apenas um fluxo no peito, que o doutor Feld trata da maneira habitual, com sangrias e purgativos. Lamento dizer que, como sempre, essas coisas só parecem enfraquecê-lo ainda mais. Seu pai sempre detestou camomila e sanguessugas.

Ah, os médicos! Doença e agonia parecem seguir na esteira deles. Sua prima Charlotte foi para a cama dar á luz há quatro dias, tão saudável quanto jamais poderia estar. Já arrumáramos a parteira, mas o marido insistiu em chamar o médico para fazer o parto, e agora ela tem febre puerperal e não se espera que sobreviva. O bebê também está doente. É muito triste, uma moça tão simpática, ainda nem completou dezoito anos...

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги