Abeh providenciara a cremação de Koiko, assim como a de Sumomo, e depois partiram, galopando por léguas, todos conscientes de que uma guerreira tão brava merecia uma reverência cortês do vencedor diante do fogo... ainda mais quando se tratava de uma mulher, shishi, que em breve seria o tema de canções e lendas, a mesma forma que o golpe que a partira ao meio. E Koiko, o lírio também, ela que se lançara no trajeto do primeiro shuriken, assim salvara a vida do lorde, e a quem ele concedera a dádiva da morte sem dor. Mas Yoshi, guardião do herdeiro, dissera tristemente:

— O poema de morte delas é o seguinte:

Do nada ao nada,

Um cadáver é um cadáver,

E nada mais —

O meu, o seu, até o delas,

Será que existiram? Nós existimos?

Dali por diante, a toda velocidade, até alcançarem o castelo. Mas nem ali houvera descanso, o castelo, Iedo e todo Kwanto em polvorosa pelos preparativos dos gai-jin para a guerra... precipitada pelo ultimato do tairo, como Yoshi esperava

— Era inevitável — declarara Yoshi, na reunião dos anciãos que convocara de imediato, acrescentando, para proporcionar a Anjo um meio de se livrar da situação: — Você foi mal aconselhado... afaste o idiota que fez a sugestão e elaborou a carta.

— Foi ordem do imperador e do xógum, para que todos os gai-jin fossem expulsos — protestara Anjo, furioso.

— Ordem? O xogunato é que ordena, não um menino menor de idade, que repete as palavras que o xogunato lhe diz... nem o imperador, que só pode nos solicitar para fazer alguma coisa!

— Como tairo, considerei que o ultimato era necessário.

— E pergunto de novo, o que propõe fazer quando a esquadra chegar aqui?

— Isso não vai acontecer, porque atacaremos primeiro — respondera Anjo, para depois estremecer com uma pontada de dor, comprimindo seu flanco. — Já os cerquei; Iocoama é como um peixe morto esperando para ser estripado. A força de ataque está quase pronta.

— E a esquadra dos gai-jin?

A ira de Yoshi era intensa por seu conselho ter sido mais uma vez descartado e por se meterem, de novo, numa armadilha que eles próprios haviam criado. Não adiantava recordar a Anjo e aos outros o plano que ele projetara de forma tão meticulosa, ganhando tempo para novas táticas protelatórias contra os gai-jin, enquanto o xogunato aumentava sua força e cuidava do problema mais específico e premente de destruir a coalizão hostil de Tosa, Choshu e Satsuma, que acabaria por derrubá-los, se permitissem que vicejasse.

— Primeiro, surpreendemos Iocoama, incendiamos tudo, como sugeri há meses — dissera Toyama, tremendo de excitamento. — Vamos queimá-los!

— E como afundaria a esquadra? — indagara Yoshi, desdenhoso.

Ele notara a dor de Anjo, e sentia-se contente por isso, recordando seu acordo com Ogama de Choshu, que deveria ser confirmado depressa, a fim de manter o inimigo desconcertado e neutralizado. Toyama dissera, veemente:

— Os deuses afundarão seus navios, Yoshi-dono, como fizeram contra Kublai Khan e seus mongóis. Esta é a terra dos deuses e eles não vão nos abandonar.

— E caso os deuses estejam ausentes ou dormindo — acrescentara Anjo — mandaremos nossos brulotes... tenho centenas já em construção, centenas. Se o inimigo passar por essa barreira para bombardear Iedo, só camponeses, mercadores, artífices e parasitas morrerão. Nossas legiões continuarão intactas.

— Isso mesmo, ficarão intactas — concordara Toyama, exultante.

Anjo continuou:

— Depois que Iocoama cair, a esquadra dos gai-jin deverá partir, porque não terá mais uma base aqui para se reagrupar. Seguirá para as colônias na China, por falta de uma posição segura aqui. Se eles voltarem, nós...

— Quando eles voltarem — corrigira Yoshi.

— Está certo, Yoshi-dono, quando eles voltarem, com mais navios, vamos afundá-los no estreito de Shimonoseki, Ogama cuidará disso ou, a essa altura, já teremos mais canhões, mais brulotes, e nunca permitiremos que desembarquem, nunca mais deixaremos que instalem outra base aqui. Não haverá mais tratados para protegê-los! Absolutamente nenhum! Fecharemos nossa terra, como antes. É isso o que planejo. — A expressão de Anjo era triunfante. — Rasguei os tratados, como quer o imperador!

— Você é divino, tairo, os deuses nos protegerão com um vento divino! — exclamara Zukumura, rindo, a saliva escorrendo pelo queixo.

— Os deuses não nos protegerão das granadas dos gai-jin, nem os brulotes — garantira Yoshi. — Se perdermos Iedo, perderemos a nossa cidadela de xogunato, e depois todos os daimios da terra se juntarão contra nós para partilharem os despojos... liderados por Ogama de Choshu, Sanjiro de Satsuma e Yodo de Tosa. Sem Iedo, nosso xogunato está liquidado. Por que não podem compreender isso?

Anjo se contorcera sob outra pontada de dor, e explodira:

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