Angelique deixou passar a farpa, sabendo muito bem que ele a ajudara por vários meios e que prometera não mencionar qualquer deles. Sua mente saltou em frente, novas conclusões: essa Hinodeh é uma segurança adicional para mim.
— Pedirei um adiantamento a Jamie.
— Há o dinheiro que Sir William disse que podia ficar com você, os duzentos e sessenta e três guinéus que estavam no cofre.
— É verdade, restou alguma coisa.
Ela contemplou o mar, a fim de evitar os olhos de André, com uma intensidade perturbadora, e se perguntou como ele soubera. Também queria disfarçar sua aversão àquele André diferente, com sua histeria latente. É uma tolice ser assim, será que ele não compreende que as Parcas estão unidas? Mas, por outro lado, ele está apaixonado, e assim posso perdoá-lo.
— Mandei algum para casa.
— Estou trabalhando por sua conta, Angelique, todos os dias, com Henri. A tutela do Estado, ele tem certeza de que vai conseguir. Henri é importante para o seu futuro, ele e o embaixador serão seus defensores na luta iminente, eu garanto. Foi sensata ao decidir ficar aqui e esperar. É mais seguro, melhor.
Ela recordou como, não muito tempo atrás, André lhe dissera que era vital que fosse para Hong Kong.
Ele a observava, era difícil ver claramente através do véu, lembrando o depoimento assinado que guardara, junto com seu testamento, no cofre do ministro britânico, não confiando em Seratard... contra qualquer “acidente” que lhe acontecesse. Relatava o ato de amor do assassino da Tokaidô e o estupro — quando e como ocorrera, o sepultamento da prova — e a verdade sobre a morte do assassino. Havia ainda a segunda página da carta que o pai de Angelique enviara meses antes, que ele rasgara na sua frente, mas depois juntara os pedaços, o documento que acabaria com qualquer acordo que Tess Struan pudesse conceder... tudo isso a ser usado quando fosse necessário, pois Angelique era seu único passaporte para a posse de Hinodeh e um futuro confortável.
Raiko e Meikin vendendo e comprando segredos? Um sonho irreal, disse ele a si mesmo, amargurado. Eu lhes entreguei todo o plano de campanha e o que recebi em troca? Promessas... e nenhuma chance para abater a minha outra dívida.
— Cem guinéus — repetiu André, muito cansado e furioso para dizer por favor.
Angelique não desviou os olhos do mar.
— Por quanto tempo teremos de esperar... para Tess agir?
— Depende da maneira como Tess receberá a notícia, ou a Hoag, o que ela fará no funeral. De qualquer forma, esperará trinta dias... para saber se você está ou não grávida... antes de decidir.
André falou no mesmo tom indiferente, insistindo no passado, querendo-a dependente de novo. Ela fitou-o agora, satisfeita pelo véu. Ele teve a impressão de que seus olhos eram amistosos... talvez com medo, talvez não.
— Acrescente dez dias para que a notícia chegue ao conhecimento dela, Angelique. Dez para pensar, dez para enviar uma mensagem de volta. Cerca de dois meses, talvez menos.
— Qual será a mensagem?
— Venenosa. — Os olhos de André se contraíram. — Mas tenho algumas idéias, planos. Posso ajudá-la a se tornar rica. Temos de esperar, não há nada a fazer por algum tempo, apenas esperar. Paciência, Angelique. Paciência e um Pouco de sorte... Tenho algumas idéias.
E eu também, André Chantagista. Muitas. E planos. Para você, para Tess e para o futuro. Ternamente, ela inclinou-se, tocou-o.
— Fico contente que você tenha um amor para acalentar. É abençoado.
Angelique falou com sinceridade. Depois, como só uma mulher era capaz ela pôs a ternura de lado para sempre e repôs seus planos no lugar.
— O dinheiro estará à sua espera às seis horas, André... fico contente porque você é meu amigo.
— Eu também me sinto contente... e obrigado pelo empréstimo.
— Portanto, devemos ser pacientes de novo e esperar? É isso o que devemos fazer, não é mesmo? Um pouco de sorte e paciência? Posso ser paciente. Um pouco de sorte e paciência. Muito bem. Que assim seja.
Ele observou-a se afastar, empertigada e confiante, e também, apesar de toda a sua esplêndida pequeneza, um tanto alta.
LIVRO CINCO51
IEDO
Quinta-feira, 1O de janeiro de 1863:
Toranaga Yoshi chegara ao castelo de Iedo, procedente de Quioto, oito dias antes, cansado e furioso, a jornada desde a estação de posta de Hamamatsu em marcha forçada.
As linhas em seu rosto eram mais profundas. Onde os homens tinham medo dele antes, agora sentiam pavor. Sua ira se voltava contra eles como um açoite. Durante a jornada, exigira o máximo de si mesmo e deles, dormindo apenas umas poucas horas, desvairado com qualquer atraso, insatisfeito com as estalagens, os banhos, a comida, o serviço e o futuro. O capitão Abeh suportava o impacto, todos sabendo que era apenas frustração e dor pela morte de Koiko, a amada.