— Obrigada, mas também não. Talvez no final da semana, se eu me sentir melhor.
— Na quinta ou sexta-feira, quando achar melhor.
Seratard beijou-lhe a mão e Angelique saiu da igreja. O vento voltara a soprar. Ela sentiu-se contente pelo véu que a camuflava, pois assim não havia necessidade de se esconder por trás da fachada do rosto. As pessoas por quem passava a cumprimentavam, com tristeza, inclusive Nettlesmith.
— Lamento profundamente a sua partida,
— Obrigada, Sr. Nettlesmith, mas não vou embarcar no navio de correspondência, não hoje. — Outra vez ela viu um rosto se iluminar à notícia e acrescentou, divertida: — O Dr. Hoag proibiu-me de viajar, o que muito me entristece.
— Oh! Posso compreender. Não vai mais, hem? Ah... Pode me dar licença,
Ele correu para o clube. Dentro de poucos minutos, a notícia se espalharia por toda a colônia e não haveria necessidade de anunciá-la a mais ninguém. Ela avistou André mais adiante, esperando-a.
— Olá, André.
— Fico contente porque não vai mais viajar.
— Ah, as notícias circulam depressa.
— Boas notícias. Preciso conversar com você em particular.
— Sobre dinheiro?
— Sobre dinheiro. Você mudou muito, Angelique.
— Para melhor, espero. Como tem passado, meu velho amigo?
— Velho.
André sentia-se desanimado, hoje, cansado. Estivera com Hinodeh, noite passada, e sombras surgiram entre os dois. E violência. Enquanto ela o massageava, André estendera a mão, a fim de puxá-la pela gola do quimono e beijar seu seio, amando-a até a loucura. Mas ela se desvencilhara, fechando o quimono.
— Você prometeu não... — balbuciara ela.
A fúria contra si mesmo por ter esquecido — qualquer violação assim a mergulhava num pesar patético e abjeto, que o enfurecia ainda mais — se transformara em fúria contra ela e ele berrara:
— Pare de se comportar assim! Baka!
Nunca havia lágrimas quando André estava lá, apenas o constante e abjeto murmúrio “
— Cale-se, pelo amor de Deus!
Hinodeh se calara. E permanecera ajoelhada, olhando para o tatame, as mãos no colo, imóvel, exceto por um tremor ocasional, como um cachorro açoitado.
Ele quisera pedir desculpas, abraçá-la, seu amor incessante, mas isso não o ajudaria, apenas faria com que perdesse a dignidade ainda mais. Por isso, levantara-se, mal-humorado, vestira-se e saíra da casa sem dizer mais nada. Deixando a Yoshiwara, e depois de atravessar a ponte, descera para a praia, chutara o barco de pesca mais próximo, praguejando, até ficar esgotado. Depois, sentara sobre os seixos frios, sufocado de frustração, sabendo que ela estaria chorando naquele momento, também furiosa por não ter contido o erro dele com mais habilidade, sabendo que no dia seguinte recomeçariam como se nada tivesse acontecido, mas André tinha certeza de que, não muito abaixo do comportamento doce e gentil, havia um vasto reservatório de ódio. Por ele.
— E por que não? — murmurou ele.
— Por que não o que, André? — indagou Angelique.
— Oh... nada, estava apenas divagando.
— Vamos procurar um banco vazio. Poderemos sentar ali, e conversar.
O banco era de frente para o mar. O navio de correspondência atraiu a atenção de Angelique e ela especulou sobre o que poderia acontecer se decidisse partir. Só conseguiria entrar no covil da leoa mais cedo do que o necessário, refletiu ela. Não havia necessidade de se preocupar com isso, não havia necessidade de se preocupar com qualquer coisa... apenas assumir meu novo ser, verificar seus limites e esperar. A fumaça começou a subir da chaminé. O navio de correspondência se preparav para zarpar. Apenas uns poucos tênderes continuavam a seu lado.
— Não sou uma companhia muito boa, André, desculpe.
— Pode me arrumar algum dinheiro?
— Só tenho um pouco. Quanto precisa?
— Mil guinéus.
— Para quê?
Ele respirou fundo.
— O nome dela é Hinodeh.
André contou que se apaixonara, queria-a só para si, não revelando o verdadeiro motivo, sua doença.
— É difícil contar tudo, é claro que não posso fazê-lo, mas não consigo viver sem aquela mulher, e o dinheiro é necessário para seu contrato. Preciso obtê-lo, de qualquer maneira.
— Não tenho a menor possibilidade de conseguir essa quantia, André — murmurou Angelique, chocada, mas também comovida. — O que me diz de Henri? Ele não poderia lhe dar um empréstimo?
— Ele recusou, até mesmo recusou a me dar um adiantamento sobre o meu salário. Acho que gosta da minha dependência...
— Se eu falasse com ele...
— Não, não deve fazer isso, seria pior. — Ele fitou-a de uma nova maneira. — Quando conseguir seu acordo de casamento, espero que seja rápido, trabalharei para que saia o mais depressa possível, quero que me empreste o dinheiro, mil guinéus.
— Se eu puder, André, pode contar.
— Pode me emprestar algum agora? Cem guinéus... isso manterá a