— Compreendo muito bem que você pensa que é o lorde da terra e a dádiva dos deuses ao Nipão, mas acontece que não é, não é mesmo, está sob as minhas ordens, sob o meu comando. O tairo SOU EU!

— Você é o tairo, e... mas por que essa dor? — indagara Yoshi, simulando preocupação, como se tivesse acabado de notar, com a intenção de interromper a confrontação. — Há quanto tempo sente essa dor? O que diz o doutor?

— O que diz? Ele... — Anjo tomou outro gole do amargo extrato de ervas. O medicamento quase não atenuava a dor. Vinha se agravando e o novo doutor chinês se mostrava tão inútil quanto os outros, a tal ponto que ele até passara a considerar a possibilidade de um exame secreto pelo famoso doutor gigante gai-jin de Kanagawa. — Não importa minha dor. Eu conheço você.

Yoshi percebera o ódio de Anjo e sabia que o ódio era causado por sua juventude e força... e o idiota nem imagina como estou cansado da vida.

— Posso...

— Você não pode fazer nada! Atacaremos quando eu ordenar e chega de conversa! A reunião está encerrada!

Anjo saíra, mais furioso do que nunca. Agora que era o tairo, Anjo reinava autoritário, e tratava todos os outros com um profundo desdém.

Num acesso de raiva, Yoshi vagueara pelo castelo como um tigre enjaulado. Depois daquele primeiro dia terrível, relegara Koiko para um compartimento isolado e o trancara com firmeza. Mesmo assim, ela o espiava lá de dentro de vez guando, sorrindo. Irritado, ele a empurrava de volta... agora não havia como saber se Koiko se adiantara para salvar sua vida, como Abeh lhe assegurara, não havia como descobrir por que ela empregara uma assassina shishi, Sumomo Fujahit a um nome falso, sem dúvida, mas com certeza uma acólita de Katsumata.

E onde se encontra Katsumata agora?

Ele já dera ordens para que o descobrissem, onde quer que estivesse, oferecera vultosa recompensa por sua cabeça. Também ordenara a caçada e destruição de todos os shishi e seus protetores. Depois, mandara chamar Ineijn seu maior espião. O velho entrara claudicando, fizera uma reverência.

— Parece, Sire, que os deuses o protegeram como se fosse um dos seus.

— Permitindo que uma assassina shishi, armada com um shuriken, entrasse no santuário interior de minha cortesã, permitindo que minha cortesã se tornasse uma traidora, parte da conspiração?

Inejin sacudira a cabeça.

— Talvez não uma traidora, Sire, nem parte de uma conspiração, apenas uma mulher. Quanto à shishi, Sumomo, ela apenas serviu para demonstrar a sua capacidade de luta, Sire, que foi perfeita... para a qual foi treinado.

A força extraordinária daquele velho servidor despachara a raiva de Yoshi para a China.

— Não tão perfeita — murmurara ele, pesaroso —, já que a gata me arranhou. Mas o ferimento sarou.

— Devo arrastar Meikin, a mama-san, até aqui, Sire?

— Ah, o pivô. Não a esqueci. Em breve, mas ainda não. Continua a vigiá-la?

— Como se fosse a sua segunda pele. O que deseja de mim, Sire?

— Quero que encontre Katsumata, vivo, de preferência. Removeu o traidor ronin que trabalhava para os gai-jin, como eu ordenei? Qual era mesmo o seu nome? Ori Ryoma, um Satsuma, é isso.

— Esse homem está morto, Sire, mas tudo indica que não era o traidor. Os gai-jin mataram Ori há algumas semanas. Atiraram nele quando tentava arrombar uma de suas casas. Mas o homem que lhes fornecia informações... e continua a fazê-lo... é um ronin de Choshu chamado Hiraga.

Yoshi ficara surpreso.

— Aquele do cartaz? O shishi que comandava os homens que assassinaram Utani?

— Isso mesmo, Sire. No momento, não posso eliminá-lo, pois ele se encontra sob a proteção do chefe inglês, e não se afasta muito do prédio deles. Tenho um espião na aldeia, e poderei lhe dizer mais coisas dentro de uns poucos dias.

— Ótimo. O que mais? Toda essa conversa de guerra?

— Espero ter mais informações em poucos dias.

— Pois trate de se apressar — dissera Yoshi, dispensando-o. — Quanto tiver notícias mais sérias, volte a me procurar.

Inejin não vai me falar, pensara ele, e lamento ter sido tão rude. Os espiões, devem ser cortejados como nenhum outro... porque deles depende sua capacidade de se movimentar... Ah, Sun-tzu, que gênio você foi... mas nem mesmo o conhecimento mais profundo de seus preceitos me diz o que fazer em relação aos gai-jin, em relação àquele garoto idiota e minha arqui-inimiga, a princesa Yazu... os dois ainda se empanturrando com o mingau com mel servido pelos sicofantas da corte, obedecendo às ordens daquele cão, o lorde camarista. O que você faria para destruir os inimigos que me cercam? Anjo, os anciãos, a corte, Ogama, Sanjiro, a lista é interminável. E impossível. E por cima de todos, os gai-jin.

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