Hiraga ainda se sentia abalado com os soldados imprevistos, a mente continuava lerda. O fato de acreditar que matara o homem na terra de ninguém não incomodava nem um pouco; avistara-o no chão, imóvel, quando se encaminhara mais tarde para o poço, por onde descera, avançando às cegas pelo túnel estreito, a área enregelante.

— Impossível com apenas três — disse ele —, e amanhã de noite é cedo demais, qualquer que seja a nossa decisão. Se o plano for incendiar a colônia precisamos de três dias para espalhar os inflamáveis e os pavios. Aconselho contra a precipitação.

Ele se envolvera com uma manta, nu por baixo, à exceção de uma tanga enquanto as criadas secavam suas roupas, encharcadas da passagem pelo túnel. Fazia frio no pequeno bangalô, o vento zunia em torno das shojis e ele tinha de recorrer a toda a sua força de vontade para não estremecer abertamente. A concentração era difícil. Ainda não podia entender por que os soldados o procuravam. No momento em que chegara, Katsumata, irado, pedira a Raiko que enviasse espiões à colônia, a fim de descobrir o que acontecera, e os três poderem fazer planos para escapar da casa das Três Carpas, caso os soldados entrassem na Yoshiwara.

Agora, ele observava Katsumata servir-se de mais saquê. A ira contraíra suas feições já afiladas, fazendo com que parecesse ainda mais perigoso.

— Hiraga, minha opinião é a de que devemos atacar amanhã.

— E minha opinião é a de que só devemos entrar em ação quando tivermos uma possibilidade de êxito — respondeu Hiraga, com igual firmeza —, não antes... sempre foi esse o seu conselho... a menos que sejamos surpreendidos em campo aberto e nos defrontemos com a morte ou a captura. Takeda, qual é a sua opinião?

— Primeiro, eu gostaria de saber qual seria o plano. Você conhece o alvo como ninguém. O que faria?

Hiraga tomou seu chá quente, aconchegou-se ainda mais na manta, fingindo pensar, grato porque Takeda tendia para a sua posição.

— Se ainda tivesse meu acesso normal, Akimoto e eu poderíamos pôr todos os inflamáveis nos lugares em três dias... já tenho quatro preparados e escondidos em minha casa na aldeia — disse ele, embelezando a história. — Precisamos de uns seis, o ideal seriam oito: um em cada dos dois prédios de dois andares, são de madeira, quase queimaram no terremoto; um na casa do líder dos gai-jin; um na casa ao lado; três ou quatro na cidade dos bêbados; um em cada igreja. Na confusão, podemos escapar em nosso barco para Iedo.

— Quanto tempo isso levaria? — indagou Katsumata, ainda mais rude, fazendo os dois se remexerem, apreensivos. — Quantos dias, agora que você não tem o “acesso normal”?

— Posso lhe dizer isso assim que souber por que os soldados me procuram — respondeu Hiraga.

As espadas de Katsumata se encontravam ao seu lado, as espadas de Hiraga tainbém ao alcance fácil. Assim que chegara, ele pedira as espadas a Raiko, que as havia escondido... para o caso de serem obrigados a efetuar uma fuga súbita por cima dos muros e pelo arrozal por trás da Yoshiwara. Todos haviam concluído que seria perigoso demais se esconderem no túnel.

— O que acha, Takeda?

— Proponho esperarmos até sabermos qual é o problema. Depois, podemos combinar um plano final, sensei... mas se pudermos fazer como Hiraga diz, sou a favor.

— Devemos atacar amanhã. Esse é o nosso plano final.

Pensando melhor agora, Hiraga lançou uma isca.

— Se pudéssemos fazer as duas coisas, afundar o navio e incendiar a colônia, seria o melhor — declarou ele, com a intenção de apaziguar Katsumata. — Seria possível se planejássemos assim, mas precisaríamos de mais homens. Uns poucos homens a mais, sensei.

Hiraga usou o título de respeito, que evitara até então, para lisonjear Katsumata ainda mais, e depois acrescentou:

— Poderíamos trazer três homens de Iedo. Takeda iria até lá, ele não é conhecido, voltaria com os homens em três ou quatro dias. Sou um homem marcado e não posso me movimentar até o ataque. Você nos comandará contra o navio... e posso dizer aos outros onde colocar os inflamáveis, explicar onde ir, como fazer.

— É um bom plano, sensei — disse Takeda, querendo aproveitar a oportunidade de escapar de barco, pois nunca fora favorável a um ataque suicida. — Irei até Iedo, e encontrarei os homens.

— Seria apanhado — garantiu Katsumata, os lábios contraídos numa linha fina. — Nunca chegaria lá... e mesmo que chegasse, não conheceria os lugares, não saberia para onde ir. Seria capturado.

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