Sua raiva se achava a pique de irromper, pois nunca poderia atacar sozinho, e precisava daqueles dois, ou de outros homens, e nada seria realizado sem um consenso. Se alguém tivesse de ir, só poderia ser ele. Tal pensamento não o desagradou, pois não gostava daquele lugar, não havia muitos pontos de fuga, nem esconderijos suficientes... só se sentia seguro em Quioto, Osaca ou Iedo, e também em sua terra natal, Kagashima. Ah, seria ótimo rever os amigos e a família. Mas eles devem esperar, pensou Katsumata, endurecendo seu coração: “Sonno-joi deve ser levado adiante, Yoshi tem de ser humilhado...” Ao mesmo tempo, os três homens estenderam as mãos para as espadas. Sombras apareceram na porta de shoji.

— Katsumata-sama? — Era Raiko. — Tenho uma criada comigo.

— Por favor, entre.

Eles relaxaram. Raiko entrou, fez uma reverência, a criada também, e eles retribuíram.

— Conte tudo, Tsuki-chan — disse Raiko à criada.

— Fui à casa do shoya, Sires. Ele disse que Akimoto-sama foi levado à presença do líder dos gai-jin e depois para a prisão. Ainda não foi possível falar com ele, mas com sua primeira refeição, servida por um dos nossos, poderemos descobrir mais.

— Ótimo. Ele foi espancado e arrastado? — perguntou Katsumata.

— Não, lorde, nenhuma das duas coisas.

— Tem certeza que ele não foi espancado?

— O shoya também ficou surpreso, Sire. Akimoto-sama assoviava e cantava e ouviram-no dizer, como se fosse parte da canção, “alguém traiu alguém”.

Hiraga comentou, sombrio:

— Foi isso que ele disse na aldeia. O que mais o shoya contou?

— O shoya diz que sente muito, mas ainda não sabe por que os soldados o procuram. Os guardas continuam lá. Assim que ele souber o motivo, enviará o aviso.

— Obrigada, Tsuki-chan — disse Raiko, dispensando-a em seguida.

— Se ele não foi espancado — murmurou Katsumata —, não seria porque deu a informação que eles queriam, e o puseram na prisão para protegê-lo de você?

— Não — respondeu Hiraga. — Ele não diria coisa alguma.

A mente de Hiraga divagava: quem seria o traidor? Seus olhos fixaram-se em Raiko, que estava dizendo:

— Talvez eu possa descobrir. Um cliente gai-jin, que pode saber de tudo, chegará a qualquer momento. Se ele não souber, com certeza pode descobrir.

André entrou na sala com um sorriso forçado.

— Boa noite, Raiko-san — disse ele, repugnado com a própria fraqueza. Ela cumprimentou-o com frieza, ofereceu chá. Depois de tomado o chá, André lhe entregou a bolsinha com as moedas.

— Aqui outro pagamento, sinto muito não tudo, mas bastante no momento. Quer falar comigo?

— Esperar um pouco é polido, Furansu-san, entre amigos — disse ela, irritada. Avaliando o peso da bolsa, Raiko sentiu-se secretamente contente pela quantia e por ter acertado essa primeira e importante questão. Mesmo assim, acrescentou, para manter a pressão, tão importante com os clientes: — Um pouco é aceitável, entre amigos, mas muito não é correto, de jeito nenhum.

— Prometo mais em um ou dois dias.

— Lamento que seus pagamentos estejam tão atrasados.

André hesitou, mas acabou tirando o anel de sinete de ouro.

— Tome aqui.

— Não quero isso. Devo liberar Hinodeh, permitir que ela vá embora, depois você...

— Não! Por favor, não... escute, tenho informações...

André não se sentia bem, tanto por causa da recepção fria de Raiko, como por causa de uma enxaqueca adquirida durante a reunião com Angelique, Que se recusou a desaparecer. E por causa de Angelique. E porque Tess Struan não viera no Prancing Cloud, o que lhe facilitaria a negociação de um acordo e a obtenção da riqueza de que precisava. Não tinha o menor desejo de ir a Hong Kong para desafiá-la, ali, no covil da Casa Nobre.

Angelique ainda é a única chance que você tem, seu cérebro continuava a martelar. Seratard tornara a consultar Ketterer, Sir William e até mesmo Skye, sobre a validade do casamento. Todos estavam convencidos de que resistiria num tribunal.

— Mas em Hong Kong? Não tenho a mesma certeza — comentara Ketterer, desdenhoso.

Os outros haviam dito a mesma coisa, com palavras diferentes, em graus diferentes... exceto Sir William.

— Há muitos desonestos ali, os juizes não são iguais aos de Londres... são coloniais, há muita corrupção, muita fraude. Uns poucos taéis de prata... e não podemos esquecer que a Struan é a Casa Nobre...

Raiko inclinou-se para André.

— Informações, Furansu-san?

— Isso mesmo. — Era agora ou nunca com Raiko... e Hinodeh. —Especiais. Segredos sobre a reunião secreta de Yoshi com os gai-jin.

So ka! — exclamou Raiko, toda atenção. — Continue, Furansu-san. Ele contou o que acontecera, em detalhes, para o profundo interesse de Raiko, que prendeu a respiração várias vezes, não pôde conter diversas exclamações. E quando, abruptamente, André entrou na parte de Yoshi exigindo a entrega de Hiraga, ela empalideceu. A ansiedade de André se evaporou, ele ocultou sua satisfação, e fechou a armadilha.

— Então Hiraga amigo seu?

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