A propósito do episódio sobrenatural, e tendo sempre em mente o apuramento da verdade, ousa a narradora arrancar o seu leitor à cena vivida por Fernão para, no capítulo seguinte, como num passe de magia que só a imaginação permite, o transportar a esse novo espaço invocado por artes demoníacas de um bonifrate possesso, a fim de lhe dar outro relato dos mesmos sucessos, registados pelos xamãs e homens velhos da Terra Australis em pinturas, canções e mimos que ainda hoje se podem observar nas cavernas e nas danças aborígenes. Após esta curta viagem no tempo, se retomará o fio à meada do relato da embaixada de Fernão ao reino dos Batas.

84 Presumivelmente a actual Sir Graham Moore Island, à entrada de Napier Broome Bay, segundo Peter Trickett, em Para Além de Capricórnio.

85 Woomera ou wommera é um atirador de lanças.

V

Pode ver-se passarem as nuvens, mas não os pensamentos

(maori)

Alchera ou Alcheringa (O Sonho ou a Era do Sonho):

No alvorecer dos tempos, a Terra era uma imensa planície, de onde se ergueram os Seres Sonhadores que aí dormiam, tomando formas de plantas e árvores, rochas, lagos e poços ou animais como o canguru, a serpente e o falcão.

A Era do Sonho terminou quando os Seres Sonhadores deixaram a superfície da Terra, mas o seu rasto permaneceu nela. E deixaram principalmente os Wandjina, Espíritos Ancestrais, senhores da chuva e do trovão, para trazerem à vida os seres humanos, as plantas e os animais, assim como as leis, o fogo e as armas, para ajudar o povo a viver na terra.

Graças aos rituais e cerimónias sagradas das tribos, ensinadas pelos Espíritos Ancestrais, a ligação dos homens com a Época do Sonho é continuamente renovada, tornando presente esse tempo primordial.

O povo é, pois, descendente dos Seres Sonhadores, que não morrem, vivendo sempre em diferentes formas. Na morte dos humanos o espírito sobrevive. O passado vive deste modo ligado ao presente e é muito real.

(Mito aborígene da Terra Australis)

Na gruta das pinturas dos wandjina, o Curandeiro desperta do seu Sonho causado pela erva que lhe permite comunicar com os Espíritos Ancestrais para pedir conselho e ajuda. Olha o grupo de cabeças redondas, com o seu halo ocre, os rostos brancos sem boca, os grandes olhos sombrios como poços sem fundo que o atemorizam sempre, contudo, tanto elas como Ungut, a Serpente Arco-Íris, não parecem perturbadas.

Não viera ali para pedir chuva ou caça abundante. A sombra do Curandeiro, separada do corpo durante o Sono, fora por ele enviada a Wallandanga, a grande Serpente Nebulosa de Estrelas por onde caminham os seres celestes, enquanto a Mulher-Sol com a sua tocha terrível e o Homem-Lua com o seu pálido facho iluminam a Terra. A sua sombra deambulara pelas regiões do Céu, onde os heróis vivem como estrelas, graças às proezas que cometeram na terra, porém não achara quem pudesse defender o seu povo dos wandjina que tomavam a forma de homens brancos, como as sombras dos mortos, com peles de crocodilo e tartaruga. O Curandeiro mandara a sua sombra ao Mundo Subterrâneo pedir ajuda aos Espíritos dos Antepassados, porque os wandjina maléficos vinham do mundo dos mortos para, mais uma vez, destruírem a harmonia do seu mundo.

A primeira visita dos altos e corpulentos Homens-Crocodilo à Ilha causara temor e estranheza ao povo, contudo, ao verem entre eles gente da raça dos pescadores de pérolas e de pepinos do mar, das ilhas do norte onde mora a Mãe de todas as coisas, os caçadores tinham-se acercado dos visitantes, para os conhecerem e tocarem nos seus estranhos corpos. Trocaram o ouro e as carapaças das tartarugas pelos panos vermelhos e azuis que eles traziam e ofereceram-lhes as mais belas mulheres da tribo em sinal de boas-vindas.

Então, o wandjina de longa veste que parecia ser o seu curandeiro – com o alto da cabeça rapado como um halo e um amuleto feito com dois paus cruzados – e também o chefe recusaram as mulheres, afrontando todo o clã ao infringir o tabu sagrado da hospitalidade e mostrando desse modo como as suas intenções eram maléficas. O povo retirara-se para o alto da colina e os guerreiros brandiram as lanças ameaçadoras, com gritos de Warra! Warra!, para que se fossem da sua terra. Por fim, partiram e o Curandeiro, que era seu pai, pintara na parede da gruta o wandjina estrangeiro da longa veste ocre, com poderes de xamã.

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