Isto fizeram os wandjina pela primeira vez abrindo e soltando o seu pénis para com ele poderem lançar relâmpagos e coriscos de fogo. Assim o jovem iniciado poderá fulminar os seus inimigos com o raio e fazer o fogo que alimenta a vida.
No recinto da praia, purificado pelo fumo da fogueira, o tocador sopra no comprido tubo do didjeridu um longo lamento, as mulheres e as crianças cantam em voz baixa, fazendo música com dois paus ou bumerangues e marcando o ritmo ora com palmadas nas coxas, ora agitando folhas de árvores para simularem a passagem do vento nas penas da emu ou o restolhar de um animal assustado. Música, palavras e movimentos que fazem parte do Corroboree de canções e danças que contam as batalhas para conhecimento das gerações vindouras, recebidos pelos Criadores de Canções nos seus contactos com o Mundo Subterrâneo. O combate da praia já faz parte da gesta do povo e também da herança do Curandeiro, como todos os mistérios e ritos que remontam aos Espíritos Ancestrais da Era do Sonho e foram ensinados a sucessivas gerações de Curandeiros e enriquecidos pelos Criadores de Canções a cada novo sucesso digno de ser lembrado e celebrado.
Os guerreiros e caçadores alinham-se de frente para o mar, armados de lanças e escudos, os corpos cobertos por pinturas brancas, com penas coladas à pele, em intrincados padrões de guerra. Como um só homem, batem com os pés no chão, gritando os seus insultos aos inimigos, segundo o ritual ensinado pelo Curandeiro; os mais valentes avançam um a um, fazem o elogio da sua bravura, enumerando as suas proezas e lançando desafios às duas grandes canoas que se acercam, vindas do recife.
Cada embarcação traz à proa um grosso tubo feito de casca de árvore, figurando o pau-de-fogo dos wandjina invasores, os seus trinta ocupantes cantam e remam vigorosamente para a praia, onde desembarcam de um salto, puxando as canoas para terra. Vestem couraças feitas de casca de árvore, que lhes cobrem a cabeça, o peito e as coxas86 como peles de crocodilo e de tartaruga, vêm armados com espadas compridas de madeira e lançadores de dardos. O chefe dos guerreiros da praia e o cabeça dos wandjina invasores travam um diálogo cantado, para saber quem são, de onde vêm e o que pretendem.
O didjeridu solta o som grave e ameaçador do trovão, as matracas estralejam, as mulheres batem com as conchas em uníssono: são os estrondos dos paus-de-fogo das proas das canoas que desferem os seus raios e desencadeiam a batalha. Os guerreiros atiram uma chuva de lanças sobre os Homens-Crocodilo que despedem os seus dardos e carregam sobre eles agitando as espadas. Os guerreiros tombam, os wandjina também, atravessados pelas lanças. Os estrondos sucedem-se, muitos guerreiros caem sem vida e os Espíritos Brancos cantam vitória. Há combates singulares, com cânticos de morte ou de glória. O coro entoa as peripécias da batalha e a valentia dos heróis para animar os guerreiros que, com renovado ímpeto, lutam encarniçados até o último invasor ser vencido. Na praia pejada de mortos, os vencedores festejam o seu triunfo.
86 Imitavam os elmos e as couraças (e também as espadas e bestas que lançavam virotões) dos portugueses, na descrição da dança observada por H. V. Horne, em 1909, na ilha onde mais tarde se acharam os canhões do século XVI com o escudo de Portugal, transcrita em Para além do Capricórnio, de Peter Trickett.
VI
Não penses que não há crocodilos, só porque a água está calma
(malaio)
Lenda da origem das guerras entre os reinos de Bata e de Achem:
Uma manhã, el-rei de Achem avistou, a Este, uma luz azul muito brilhante e os seus espiões disseram-lhe que era o fulgor da bela princesa Puteri Ijo, filha d’el-rei de Deli Tua, das terras altas dos Karo. O impetuoso senhor de Achem, enamorado dela, mesmo sem a ver, enviou-lhe um emissário com o seu pedido de casamento e um riquíssimo presente. Como a princesa o recusasse, cheio de paixão, el-rei decidiu subjugá-la pela força das armas e invadiu-lhe o reino.
Os exércitos travaram uma crua batalha, sendo a vitória do primeiro combate dos dois poderosos irmãos de Puteri Ijo, um canhão e uma monstruosa serpente. Contudo, o enamorado rei de Achem recorreu a um ardil e lançou moedas de prata em lugar de pelouros contra as hostes de Deli Tua; maravilhados, os soldados abandonaram os seus postos de batalha e correram a apanhar o inesperado tesouro. Só o canhão, irmão de Puteri Ijo, continuou a lutar até o seu corpo ficar abraseado e sedento; então bebeu água e rebentou.
Derrotado o exército, o irmão-serpente refugiou-se no mar e Puteri Ijo ficou cativa dos achens e seria levada num navio para o reino do futuro esposo. Pediu para ir dentro de uma caixa de vidro e que cada família de Achem deixasse de oferta, no porto de desembarque, uma mancheia de cimpa – a mistura de farinha de arroz e açúcar de cana – e um ovo de galinha.