Voltara a Samatra, no ano seguinte, com um jurupango, para navegar em águas menos profundas, e outro bergantim. À sua chegada a Barus, a fim de renovarem os tratados de amizade com o rei e aguardarem pelo início da monção de sudeste, uma armada de cinco navios guzerates, que estava surta no porto, em vez de fugir como os achens do ano anterior, fiada na diferença de número, acometera as embarcações portuguesas. O jurupango e o bergantim conseguiram fugir das bombardas inimigas, porém um temporal colhera-os de seguida e arrastara-os para muito longe em louca correria sobre as águas, para não mais serem vistos.

– Pode dizer-se que Diogo Pacheco foi o primeiro português a morrer neste descobrimento da Ilha do Ouro, pelo menos que se saiba. – E acrescentara, rindo-se: – Não quero que te aconteça o mesmo! Colhe todas informações e notícias que puderes, contudo sê discreto no modo como o fizeres, para que não te conheçam por espia e te matem, pois nem o cargo de embaixador os deterá.

Era um conselho sábio e ele faria bem em segui-lo, contudo a sua curiosidade intrometida sobrepunha-se muitas vezes à prudência avisada.

81 Camelo é um canhão curto e grosso que dispara balas de pedra de oito a quinze quilogramas. Meia espera é um canhão com cerca de dois metros de comprimento que dispara balas de ferro de cerca de três quilogramas de peso.

82 Os elches (do árabe elj) eram os cristãos que renegavam a sua fé e se convertiam ao islamismo.

83 Esta descrição da Ilha do Ouro, registada pelos cronistas portugueses, antes de 1520, coincide perfeitamente com a costa de Kimberley, no noroeste da Austrália e só o poderiam saber se lá tivessem ido. Timor fora visitado e registado em 1512-14. É impossível que os portugueses não conhecessem também as costas norte e noroeste da Austrália, a partir dessa data, tendo já explorado as ilhas de Banda e Molucas.

IV

Uma jornada de mil milhas começa com um único passo

(malaio)

Mito da criação do mundo em Samatra

No início só havia Debati Hasi Asi, Deus Supremo que criou o Céu com um imenso Mar por baixo; a Terra e os homens ainda não tinham sido criados. No Céu, dividido em sete níveis, viviam os deuses e o Mar era a morada de Naga Padoha, o poderoso dragão dos Infernos. Foi o deus Mula Djadi Na Bolon (O Começo do Devir) que criou tudo o que existe, com a ajuda de duas andorinhas mensageiras. Mula Djadi tinha três filhos – Batara Guru, Mangalabulan e Soripada, nascidos dos ovos de uma galinha que ele fecundou –, aos quais deu por esposas as suas três filhas. Os três casais divinos foram os pais da humanidade.

Foi Boru Deak Parudjar, a filha de Batara Guru, que criou Samatra. Para fugir ao futuro marido, o horrendo lagarto filho de Mangalabulan, ela desceu por um fio dos Céus e refugiou-se no Mundo do Meio, que não passava de um deserto de água, onde ficou a viver. Mula Djadi compadeceu-se da infelicidade da neta e enviou-lhe uma das suas aves mensageiras com um punhado de terra para ela viver.

A Deusa estendeu a terra sobre o mar como uma manta larga e comprida. Naga Padoha, o dragão dos Infernos que vivia na água, quando sentiu o peso da terra sobre a cabeça, rugiu de fúria e tentou sacudi-la, rodando e retorcendo o corpo. A terra encharcada e amolecida pela água quase foi destruída. Auxiliada por Mula Djadi, Parudjar logrou vencer o dragão, prendendo-o a um bloco de ferro; sempre que Naga Padoha agita as correntes, causa um tremor de terra no mundo.

O filho de Mangalabulan tomou uma forma mais bela e Parudjar desposou-o. Desta união nasceu um casal de gémeos que ficaram na Terra e se uniram para criar a humanidade. É deles que descendem os batas.

Fernão e o língua seguem o rapazola que os leva ao pequeno pagode onde os espera a feiticeira bata, para invocar a alma do marido e fazer-lhe perguntas. O português sente um arrepio de medo, por tal coisa lhe parecer obra do demónio, pecaminosas superstições em que são useiros e vezeiros os gentios destas terras do Oriente, capazes de lhe porem em perigo a cristianíssima alma. Vai ter dificuldade em justificar a Pêro de Faria os custos que desembolsara para tão diabólica cerimónia, no entanto, apesar destes perigos, não conseguira resistir à curiosidade de saber o mistério que a mulher guardara consigo durante tantos anos.

Ela contara ao língua que, ao verem os navios de Diogo Pacheco com as bandeiras portuguesas a acercarem-se do porto, os mouros das naus de Cambaia avisaram o governador contra aqueles cristãos, que não queriam mercadejar pacificamente, mas tão-só apoderar-se do reino, como haviam feito a Malaca e outras terras, com terríveis massacres dos seus povos. Convencido e temeroso, o governador mandara sair as embarcações de guerra com os seus guerreiros, mas o marido dela, que se fizera amigo de Pacheco na visita anterior, metera-se numa almadia para ir ao bergantim preveni-lo do perigo e, com medo de ser morto pela sua gente, embarcara com ele.

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