A flauta intensifica o seu canto, alteando e prolongando os sons, como se quisesse abafar a voz múltipla e vibrante do gamelan. A viúva, que não parara de murmurar em tom de reza, começa a sofrer análoga transformação. Os seus olhos fixos e vítreos parecem cegos, a voz enrouquece e engrossa, saindo em palavras soltas, como se sufocasse. O assistente sorve um bochecho de água de rosas e cospe-lha no rosto. A mulher começa a contorcer o corpo acompanhando a dança cada vez mais viva do bonifrate, que move as mãos de dedos compridos e longas unhas, desenhando gestos de dor e ternura, símbolos e palavras que ficaram por dizer. Por fim, o títere pára de dançar, inclina-se para a viúva e estende-lhe as mãos de dedos trémulos. A flauta cala-se, só os tambores se ouvem numa batida espaçada sempre igual. A dukun fica imóvel também, o assistente cospe-lhe um novo borrifo de água na cara que parece despertá-la e ela fala numa voz que não é sua.
– É o begu do marido – diz o intérprete, numa voz cortada de medo. – Quer saber por que o chamaram.
– Pergunta-lhe o que sucedeu aos portugueses na Ilha do Ouro – pede Fernão, pálido e assustado, sem talante de zombar. Não fala em Diogo Pacheco, porque nem o língua nem o assistente saberiam pronunciar-lhe o nome.
O intérprete obedece e o assistente repete a frase, em voz alta, à mulher. Os olhos do bonifrate giram, em aflição, lágrimas grossas correm-lhe pelas faces de madeira e as mãos de dedos afilados sobem até ao rosto, com se quisessem esconder a vergonha ou o remorso.
– O boneco está a chorar! – murmura Fernão, estarrecido.
A viúva contorce-se em grande sofrimento, revirando os olhos nas órbitas, o assistente borrifa-lhe mais uma vez o rosto; ela imobiliza-se e começa a falar com uma voz de homem que parece sair não dela mas do bonifrate, num longo arrazoado que o língua com voz estrangulada se apressa a trasladar:
– O begu não tem descanso por causa da traição que, em vida, o homem cometeu contra o português seu amigo.
Tal como os jaus contaram em Malaca, os dois navios haviam sido levados juntos pelo vento, como se tivessem asas, até Timor, e dois dias mais tarde tiveram vista de uma grande ilha desconhecida84, a que Diogo Pacheco dera o nome de Pago, em memória da conquista da fortaleza do rei de Bintão pelos portugueses; porém, quando se preparavam para surgir, nova mudança dos ventos fizera naufragar o jurupango contra os recifes. A partir daí, a história que Fernão ouve na estranha voz da mulher é outra.
Pacheco ia no comando do bergantim quando se dera o desastre e vira consternado um bando de negros, armados de lanças de pontas de arpão e clavas de madeira, protegidos por pequenos escudos redondos, lançarem um ataque à embarcação encalhada e impossibilitada de recorrer às bombardas para se defender. Disparara a sua artilharia, mas apesar do primeiro susto que os fizera fugir, ao ouvirem os estrondos e o derrube das árvores mais próximas, os cafres tinham carregado de novo sobre o navio, posicionando-se de modo a ficarem fora das vistas do bergantim.
Fora então que Pacheco fizera baixar os dois batéis, indo no primeiro com a maioria dos portugueses armados com arcabuzes e bestas, seguido pelo dos casados malaios, os jaus e o bata. À medida que avançavam para a praia podiam ver que os negros eram muito distintos dos de África e estavam nus, ornados com colares e pulseiras de conchas, um osso atravessado no nariz e escaras no rosto, com pintas brancas e um círculo em volta de cada olho. Tinham bons corpos, que cobriam de uma espessa camada de barro, pintados com riscas brancas, largas ou estreitas, nas pernas e braços, manchas vermelhas nas costas e peito.
O capitão disparara o pequeno canhão que levavam no esquife, fazendo alguns mortos e pondo outros em fuga, todavia, mal desembarcaram na praia, os cafres voltaram em maior número, homens e mulheres, arremessando-lhes lanças de longe, muito certeiras, por meio de um pau-lançador85, assim como também pedras e uns paus curvos e chatos que, se não derrubavam os adversários, voltavam pelo ar às mãos dos que os tinham lançado.
Vendo o número de atacantes, Pacheco fizera sinal ao segundo esquife, para que lhes acudisse, contudo os malaios, assustados com o que viam na praia, lançaram fora o único português que estava com eles e regressaram ao bergantim, soltando-lhe as velas e zarpando para Malaca.
Tendo deixando os companheiros entregues à sua sorte, nunca chegaram a saber se algum deles se salvara ou se haviam sido todos mortos. Pelo caminho forjaram a sua história de fuga e salvação, para não serem acusados e condenados como desertores ou por crime de traição.