Passadas muitas luas, os espíritos maléficos vieram de novo do mundo dos mortos e quiseram pisar a ilha sagrada dos seus totens e isso o Curandeiro não pudera consentir e convocara os homens para a guerra. Uma tremenda batalha fora travada na praia e, apesar dos raios mortíferos dos paus de fogo e dos estranhos arcos que lançavam grossos dardos em vez de setas, o povo tinha vencido os Homens-Crocodilo, pagando a vitória com muitas vidas. Os mais valentes dos wandjina invasores foram comidos pelos guerreiros vencedores, para que a sua força e valentia passassem a fazer parte da tribo e a tornassem mais forte. Só a um pouparam a vida, por ser o chefe, que se distinguia pela falta dos dentes da frente.
De tempos a tempos tinham sidos avistados os pássaros de madeira gigantes com as asas brancas abertas ao vento, trazendo no seu bojo os espíritos brancos e ele temia que, se os wandjina tutelares os não protegessem, pudesse haver no céu uma nova Aurora pintada com o sangue derramado da sua gente numa feroz batalha. Como a do tempo da sua juventude, quando esses espíritos maléficos usaram contra o povo paus-de-fogo que explodiam em relâmpagos e trovões, dardejando raios que arrasavam tudo à sua volta. O Curandeiro roga aos wandjina tutelares que lhe enviem, numa estrela cadente, um pau-de-fogo gigante semelhante aos que nessa batalha tinham recolhido do pássaro de madeira e da sua piroga gigante e transportado para a ilha sagrada como totens da tribo, em honra da sua vitória.
Agora vêm mais uma vez inquietá-los e o curandeiros dos clãs de terra firme da ponta do recife pintaram na gruta dos wandjina da sua tribo imagens dos pássaros de madeira com asas brancas que trazem de novo sobre as águas os espíritos brancos do mundo dos mortos. E ele preparara-se cuidadosamente para a luta, lançando mão aos mais poderosos rituais encantatórios para proteger o seu povo.
Hoje terão lugar as últimas e mais importantes cerimónias de iniciação dos mancebos da tribo para a sua passagem à idade viril e das raparigas à puberdade a fim de receberem homem, para as quais se vinham preparando há muitas luas. O Curandeiro não pode permitir que os espíritos maléficos ensombrem a cerimónia, por isso escolhera um lugar secreto onde preparara a grande fogueira para limpar e purificar todos os neófitos com o seu fumo. Usara as duas matracas sagradas oferecidas pelos Espíritos Ancestrais, que pertenciam à sua família de Curandeiros há muitas gerações, para que a cegarrega estrepitosa dos seus sons expulsasse as forças maléficas do lugar. Fariam a dança da vitória do povo contra os wandjina de pele de crocodilo e tartaruga, com os seus paus-de-fogo de ferro e lança-dardos de estranha forma. Quanto ao resto, dependeria da protecção dos wandjina tutelares.
O canto e a dança iriam trazer consolo às raparigas que, após o seu primeiro sangue, haviam recebido as escaras da puberdade; porém, nem o pensamento de serem finalmente desfloradas pelos parentes, livres para se deitarem com qualquer moço que desejem para marido, as deixa esquecer as dores terríveis causadas pelas incisões da faca de pedra nas nádegas, agravadas pela areia que lhes tinham lançado nos lanhos para fazer as escaras maiores e mais belas. A provação por que passam serve para as ensinar a sofrer a dor com coragem, por isso, a muito custo contêm as lágrimas e os gemidos. O verdadeiro consolo vem-lhes do pensamento de quão mais atrozes são os rituais de iniciação a que se submetem os rapazes, no lugar secreto que elas não podem conhecer.
Do remoto campo sagrado não lhes chegarão gritos nem choros dos neófitos, que sofrem sem um gemido as dores do ritual da sua passagem ao mundo dos homens. Já todos têm as escaras no peito, ombros, braços e nádegas a cicatrizarem, mas ainda assaz dolorosas, contudo a nova dor do sexo aberto abafa qualquer outro sofrimento. No centro da clareira o último dos rapazes está deitado de costas sobre os corpos do pai, do tio e do irmão. Em menino já fora circuncidado, trazendo amarrado aos cabelos a pele do prepúcio, pele maléfica em forma de asas de morcego que o oferecia à morte. Agora fará o ritual da sua confirmação.
O Curandeiro levanta-lhe o pénis e faz-lhe por baixo uma incisão com o estilete de pedra, rasgando a pele a todo o comprimento e com ela o canal da urina, pondo a descoberto a massa de carne vermelha e sangrenta; o neófito estremece violentamente, aperta o bumerangue que tem na mão até os dedos ficarem brancos, para suster a dor, mas não solta um som. O pénis aberto é comprimido contra uma pedra, para o fazer mais leve e mais belo.
Os parentes ajudam-no a erguer-se e levam-no até à fogueira purificadora para que o sangue escorra até ao fogo e cinzas quentes são lançadas sobre a ferida, que depois será tratada com gordura de emu. O mancebo junta-se aos que como ele se tornaram homens e vão partir sós para viverem nos matos, sem poderem comer serpentes, opossuns ou lagartos, até as feridas sararem por completo.