Fernão sente o sangue subir-lhe ao rosto, de vergonha e embaraço, com o remoque certeiro de Timorraja, incapaz de esboçar qualquer protesto ou justificação, jurando no seu íntimo que não voltará a falar-lhe de socorro e ainda menos a fazer-lhe promessas em nome de Pêro de Faria ou de quem quer que seja, sabendo de antemão que não serão cumpridas.
– Se já nada mais tens a fazer aqui, não percas tempo em partir, pois a monção está no fim e poderás achar no golfão grandes calmarias que te levem a Pacém, donde te Deus guarde, porque te afirmo que, se por mofina sorte lá fores ter, vivo te haverão de comer os achens aos bocados, o próprio rei mais que todos, porque jurou ao seu Mafamede, da casa de Meca, beber o turvo sangue estrangeiro dos malditos cafres sem lei, do cabo do mundo, usurpadores de reinos alheios nas terras da Índia e ilhas do mar, pois é assim que ele vos nomeia. Diz de minha parte ao capitão de Malaca, que vigie bem este inimigo achem, porque em nenhuma outra cousa imagina, senão em como vos há-de lançar fora da Índia e meter nela o turco. Isso lho escrevi também nesta carta de resposta à sua embaixada.
A carta vai acompanhada de um riquíssimo presente para Pêro de Faria e, ao despedir Fernão com todas as honras, Timorraja oferece-lhe dois cates89 de ouro e um pequeno terçado com embutidos preciosos no punho. O embaixador Aquarem Dabolai vai acompanhá-lo com escolta de honra até ao jurupango, onde o espera Coja Ale, que logo manda levantar ferro e seguir para a povoação de Batu Rendang, onde tinham esperado pelo chamado do rei.
À chegada, Fernão travara amizade com o rajá do povoado e tem esperança de poder empregar uma parte do seu ouro na compra de benjoim ou pimenta, a melhor preço do que em Panaju, o que lhe permitirá fazer bons tratos em Malaca ou no Sião. Além disso, deseja saborear de novo um naco de búfalo do rio como o que então comera, cozinhado lentamente em leite de coco com especiarias, acompanhado de arroz, que lhe fizera chupar os dedos deliciado.
O chefe tinha-lhe contado uma história sobre o nome do seu povo e a razão para os telhados das casas terem a forma dos cornos de um búfalo, curvos no meio, de pontas reviradas para o céu nos dois lados. Os minangkabau, cujo nome significa búfalo vencedor, eram assim chamados por causa de uma famosa batalha entre o seu povo e as forças do império Majapahit.
Quando os dois exércitos se achavam frente a frente, para não haver grande derramamento de sangue das duas partes, foi decidido que uma luta de morte entre dois búfalos ditaria o resultado da contenda. O príncipe do Majapahit escolheu um verdadeiro touro de combate, enorme e feroz, enquanto a tribo dos minangkabau apresentou uma cria de búfalo esfaimada, a cujos minúsculos cornos tinham atado lâminas aceradas de punhais. Assim que soltaram os animais, o vitelo faminto correu em direcção ao gigantesco búfalo para mamar, tomando os testículos por úberes. O grande macho não lhe prestou atenção, à espera de um adversário condigno e a cria, ao enfiar-lhe a cabeça por entre as pernas à procura de leite, espetou-lhe as facas na barriga e esventrou-o. Desse modo, os minangkabau saíram vitoriosos da guerra.
Chegam a Batu Rendang em boa hora, porque no dia seguinte vai haver celebrações no povoado, para festejarem senão a vitória pelo menos o regresso a casa dos homens que tinham combatido os achens. Fernão sabe por experiência que, em Samatra como nas aldeias de Portugal, não se fazem festas sem abundantes comezainas e vinho generoso, que no presente caso será rendang de búfalo regado com tampoy, o vinho feito de um fruto de casca grossa cor de canela. O rajá, sabendo da nova visita do embaixador de Malaca, há-de convidá-lo para comer a seu lado e assistir a todas as celebrações.
Batu Rendang sofrera algumas mudanças, decerto por medo dos achens, que constituíam agora uma real ameaça. A povoação está rodeada por uma cerca muito alta e forte, com portões que só se abrem para dar passagem a carroças e gado, tendo os aldeões de subir por uma escada móvel de canas e descer por outra, para entrarem ou saírem do recinto. Os portões abrem-se, todavia, para dar passagem ao embaixador Fernão Mendes Pinto e, quando ele entra, seguido de Coja Ale e do língua, o rajá vem ao seu encontro para o receber com as devidas cortesias e tomar o saguate ao seu hóspede.
O festim tem lugar na praça principal, numa espaçosa clareira com inúmeras esteiras de uma espécie de juncos ou caniços muito macios que parecem feitos de pano ou lã. Fernão vê um grande braseiro junto de uma estaca, onde será atada a rês que será sangrada e talhada em partes para serem assadas nas brasas, como é de uso naquelas partes. As mulheres dispõem vasilhas de arroz fumegante e recipientes que o língua lhe diz serem de um molho de suco de limas, sal e pimenta vermelha.