É um ajuntamento de toda a população de Batu Rendang, embora as mulheres se mantenham afastadas e o chefe conduz os hóspedes ao lugar de honra onde estão sentados os anciãos e homens principais com insígnias de chefes de outras tribos ou clãs. Sente-se um frémito de excitação na assistência, sobretudo dos guerreiros em trajos de combate, no modo como falam, movem os corpos ou agitam os crises e Fernão alvoroça-se também, com a ideia de assistir a um combate entre os homens ou destes com o búfalo, tão ao gosto dos jaus.

De súbito, faz-se silêncio, a multidão arreda-se para dar passagem aos guardas que conduzem um guerreiro achem, cativado na guerra pelos valentes soldados de Batu Rendang.

– Ninguém pagou o seu resgate – diz-lhe o língua, enquanto o prisioneiro é atado de pé à estaca. – Foi condenado à morte.

O guerreiro que o capturou avança, empunhando o cris e diz à assistência que o cativo é um infame, um covarde que matou à traição alguns dos melhores combatentes do seu clã, uma fera que não merece o nome de homem.

Todos os minangkabau sacam os crises, gritando por vingança e alguns guerreiros atiram-lhe lanças que o ferem em várias partes do corpo, sem lhe arrancarem um grito. O rajá acerca-se do prisioneiro, com o seu punhal desembainhado e corta-lhe um pedaço de carne do peito, que leva à boca, bebendo com prazer o sangue que dele escorre; depois, molha-o na salmoura, passa-o pelas brasas e come-o, vindo sentar-se no chão, sobre os tapetes de junco, entre Fernão e Coja Ale, ambos pálidos e mareados de morte.

É o sinal para que todos se lancem sobre o cativo, cortando-lhe pedaços de carne que comem crus ou assam na fogueira. Os gritos que a vítima solta, por fim, não os fazem parar, durando o tempo de três Ave Marias e dois credos, até ficar desacordado e morrer, descarnado até ao osso.

Algumas mulheres acercam-se do rajá, transportando vasilhas de arroz cozido onde foi misturado o sangue do guerreiro e uma travessa com as principais iguarias para honrar os seus convidados – o seu coração, nariz, orelhas, palmas das mãos e solas dos pés.

87 Do malaio amuk, que significa loucura furiosa, cólera, relacionado com práticas de magia e crença na invulnerabilidade às armas inimigas.

88 Peregrinação, capítulo XVII.

89 O cate chinês corresponde a cerca de seiscentos gramas.

LIVRO IV

MAR DA CHINA

CATAIO

Das mais cousas que vimos.

Destas grandezas que se acham em cidades particulares deste império da China, se pode bem coligir qual será a grandeza dele todo junto, mas para que ela fique inda mais clara, não deixarei de dizer (se o meu testemunho é digno de fé) que nos vinte e um anos que duraram os meus infortúnios, em que por vários acidentes de trabalhos que me sucediam, atravessei muita parte da Ásia, como nesta minha peregrinação se pode bem ver, em algumas partes vi grandíssimas abundâncias de diversíssimos mantimentos que não há nesta nossa Europa, mas em verdade afirmo, que não digo eu o que há em cada uma delas, mas nem o que há em todas juntas vem à comparação com o que há disto na China somente. E a este modo são todas as mais cousas de

que a natureza a dotou, assi na salubridade e temperamento dos ares, como na polícia, na riqueza, no estado, nos aparatos, e nas grandezas das suas cousas, e para dar lustro a tudo isto, há também nela uma tamanha observância da justiça, e um governo tão igual e tão excelente, que a todas as outras terras pode fazer inveja, e a terra a que faltar esta parte, todas as outras que tiver, por mais alevantadas e grandiosas que sejam, ficam escuras e sem lustro.

(Peregrinação, capítulo XCIX)

I

Podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo que plantámos

(chinês)

Da Carta dos Tanigores de Nanquim90 aos seus Irmãos de Pequim:

Nós, servos desta santa casa, na quinta prisão do Nanquim, fazemos saber a vossas pessoas o seguinte:

Os nove estrangeiros que esta carta vos darão são homens de terras muito apartadas, cujas fazendas e corpos o mar consumiu com seu bravo ímpeto, que de noventa e cinco que eram, só esses coitados lançou na praia dos ilhéus de Tautaa. E vindo com as suas carnes chagadas, pedindo esmola de lugar em lugar, foram presos sem razão nem justiça, pelo Chumbim de Taypor e mandados a esta prisão, onde os condenaram a pena de açoutes de que logo se fez neles execução, como no processo da sua sentença vai tratado. E querendo-lhes mais, por desordenada crueldade, cortar ambos os dedos polegares das mãos, nos pediram ajuda com infinitas lágrimas.

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