Acudindo nós a tanto desamparo, nos queixámos logo à Mesa dos Vinte e Quatro da Austera Vida, os quais, com zelo santo, se ajuntaram todos na Casa do Remédio dos Pobres. Pelo que revogando a sua primeira sentença, remeteram a causa à vossa cidade de Pequim, com emenda na segunda tenção, pelo qual vos pedimos que em tudo olheis ao que convém a estes nove estrangeiros, por que não se perca a sua justiça, o que para nós todos será vergonhosa infâmia. E também os ajudeis com vossas esmolas e cubrais suas carnes, para que não pereçam ao desamparo.

(Peregrinação, capítulo LXXXVII)

Foi provavelmente no Outono de mil quinhentos e quarenta ou quarenta e um, que Fernão Mendes Pinto entrou no porto da grande cidade de Pequim.

Mais difícil, mas não impossível, seria o ano de quarenta e dois, porque, no instante desta narração, o tempo real dos acontecimentos já se esbateu há muito na névoa do Passado, tanto para o protagonista que os registou vinte anos depois de os ter vivido, como com mais razão para a presente narradora, volvidos quinhentos anos.

Talvez a imprecisão temporal se tenha ficado a dever aos muitos meses de contínuo sofrimento a que os nove portugueses, sobreviventes do naufrágio, estiveram sujeitos no tronco de Nanquim, onde perderam toda a noção da passagem do tempo, com os dias a sucederem-se sempre iguais. Assim, a narradora pede ao seu leitor que dele se abstraia também para que, com maior liberdade, possa seguir as peripécias deste relato.

Pinto mal pode crer que atravessou, de sul a norte, o Celeste Império – a celebrada Cataio que Cristóvão Colombo julgou erradamente ter descoberto quando aportou às Antilhas –, uma nação tão vasta que ir e vir da falda do mar até à corte do Filho do Céu leva mais de cinco meses de caminho por terra. Por essa razão, e também por haver muitos salteadores de estradas, a maior parte das viagens faz-se através da imensa rede de rios e canais, em paraus91 ou juncos ligeiros como aquele em que tinham navegado.

Os náufragos vão remetidos ao tribunal do aytao dos aytaos, o intendente dos mares em Pequim, para apelação da sentença e da execução da pena a que foram condenados em Taypor, cidade onde os prenderam por vagabundagem. Em Nanquim não se tinham livrado das vergastadas, contudo, graças à carta dos tanigores, os Irmãos da Misericórdia que os socorreram na enfermaria do tronco, guardam uma ténue esperança de escapar à amputação dos dedos, se a sua apelação for atendida.

Durante a longa viagem pelo rio Batampina92, haviam gozado de alguma liberdade, porque o chifuu, o alcaide que comandava o junco, como trazia a mulher prenhe e muito fraca, fizera uma navegação vagarosa com paragens em muitos lugares, nos quais lhes dera permissão de desembarcar, sempre escoltados por guardas, para irem pedir esmola e ganharem o seu sustento.

A viagem fora um passeio de desenfadamento, comparada com o que os aguarda agora no cais, com todo o aparato da justiça imperial, conjurando de novo o pesadelo dos cárceres de Taypor e Nanquim onde vários companheiros perderam a vida, consumidos de piolhos e prostração ou esvaídos em sangue dos açoites, de que os sobreviventes traziam ainda nas nádegas e nas pernas o bordado a ponto cheio das suas roxas cicatrizes.

Desembarcam primeiro os trinta prisioneiros chins, presos de três em três, com cangas ao pescoço, algemas nos pulsos e umas correntes muito compridas que se fecham nos grilhões dos tornozelos. Como os estrangeiros vêm condenados por vagabundagem e furto, crimes sujeitos a pena de morte, um lauteaa ou mandarim, trajado com a comprida túnica de seda preta e mangas largas, própria do cargo, aguarda-os sentado na sua liteira, com uma escolta de soldados e o transporte destinado a criminosos do seu jaez.

Cuidava Fernão que o pior dos castigos, sofridos durante a sua desgraçada odisseia, fora a canga que ainda lhe dobra a cerviz, uma pesada tábua de um palmo de largo, fendida em duas partes de modo a formar numa das pontas um buraco redondo onde à justa cabe o pescoço do preso. Fechados os dois pedaços, a tábua ficava um palmo acima do cachaço, por trás da cabeça, com a parte dianteira a cair sobre o peito, descendo até aos joelhos, impedindo o condenado de dormir e também de comer, por ter as mãos presas por baixo dela. Na parte frontal tem escrito em letras grandes o pregão dos crimes e respectivas sentenças dos folangji, os bárbaros estrangeiros.

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