Este suplício, todavia, não se pode comparar à nova ignomínia a que os submetem os guardas, enfiando cada um deles, com muitos brados e algumas chibatadas, dentro de sua gaiola de canas de bambu pouco mais larga do que o hóspede, forçando-o a agachar-se sobre um pequeno banco de ripas, com a cabeça fora do alçapão. As tampas, ao cerrarem-se de cada banda, deixam um buraco no meio para o pescoço, de tal modo que o preso não pode bulir daquela posição, virar a cabeça ou metê-la para dentro para comer e, se quiser fazer as suas necessidades, tem no fundo um buraco para se aliviar à vista de todos. Enfiada cada gaiola numa vara comprida que dois homens tomam aos ombros, o mandarim fecha as cortinas da cadeira e dá ordem de partida aos seus quatro carregadores.
– Huuph! Huuph! Dai lugar! Guarda ao lauteaa! – bradam os oficiais, um bom espaço à frente e de cada lado da rua, anunciando a passagem para afastar os transeuntes.
Os escrivães e outros ministros da justiça rodeiam a cadeira, esfalfando-se para acompanhar o trote dos carregadores, fazendo balançar os penachos de pavão e as fitas vermelhas com grandes borlas nas pontas dos toucados; atrás, em passo de corrida, seguem os guardas com os prisioneiros a pé, metidos numa corrente e, na cauda do cortejo, os portadores com as gaiolas dos folangji mais os seus guardiães.
Apesar da misérrima condição a que os Fados o condenaram, Fernão pasma com tudo o que os seus olhos vêem, quase esquecido dos solavancos, causados pela andadura rápida dos portadores, que ameaçam afogá-lo. Imagens prodigiosas de gentes e de espaços vêm sobrepor-se às das sevícias sofridas no tronco de Nanquim e também do naufrágio da panoura a remos em que andara no corso sob as ordens de António de Faria, cujo junco desaparecera sem deixar rasto. Fernão perdera todos os seus bens, uma fortuna considerável ganha com assaz de perigo e trabalhos, em cujo cômputo entrava a Noiva Roubada. Uma pérola sem preço que ele amara com paixão e mágoa, cuja recordação o atormenta sem descanso, deixando-o por vezes como um semivivo, entorpecido por uma dor maior que a dos tormentos do cárcere.
Ali, as novidades que se lhe oferecem são tantas e tão variadas que não deixam lugar para nenhuma outra coisa. Beijing ou Pequim, cabeça da província de Xutianfu, merece o nome de Metrópole da Monarquia do Mundo pela sua abastança e civilização, sem igual entre as capitais da Europa ou do Oriente, como Fernão pode observar da sua gaiola. Nanquim, de onde vêm, outrora considerada a maior cidade do mundo, já não pode competir em importância e grandeza com esta imensa urbe, em cujo âmago vive o rei da China.
As ruas por onde segue o infausto cortejo são todas direitas, sem lombos nem torturas, as principais mais largas do que a rua Nova dos Mercadores dos Ferros, em Lisboa, de uma légua de comprido, bem empedradas e pavimentadas, ladeadas por formosa casaria térrea. Nos seus extremos erguem-se os pailós, uns portais semelhantes a arcos de triunfo, com sino de vigia e portas de madeira muito bem ornamentadas, pintadas de vermelho, amarelo e azul, fechadas à noite por um capitão com os seus quadrilheiros, a fim de se preservar a ordem e protecção dos moradores.
Os homens que com eles se cruzam são alvos, de bons corpos, sem barba, com os cabelos longos como os das mulheres, atados no alto da cabeça com um nó atravessado por um prego delgado ou metidos em toucados com forma de cone ou em barretes altos, redondos, de duas abas como asas. A gente comum traja camisa ou túnica de cor e a de mais qualidade usa por cima das túnicas pelotes compridos, pregueados, de mangas muito largas e calçam botas ou sapatos de couro.
As mulheres, que fogem espavoridas à passagem do cortejo, ficando a espreitá-los dos vãos das portas, por trás das árvores ou das colunas dos pailós, são do povo, porque as ricas ou as nobres só saem em cadeiras, levadas em varas por quatro ou mais criados, todas fechadas e cobertas de cortinas, tendo de cada lado uma pequena janela de rede, de modo a poderem ver para fora sem serem vistas.
Bandos de monges de cabeças rapadas, vestidos com panos brancos, tocam cascavéis e recolhem esmolas de comida. A vista dos folangji causa o maior espanto e, logo que passa o andor do lauteaa, a gente acerca-se o mais que pode para mirar as estranhas criaturas de terras remotas e ler as inscrições das cangas. Uns acenam-lhes com amabilidade, outros insultam-nos, atirando-lhes pedras e sujidades ou apupando-os com desprezo.
– Achais-vos mais formosos do que nós? – brada de súbito Jorge Mendes, que de tudo faz chiste, mesmo nas situações mais gravosas. – Por minha fé, que assim desbarbados, salvo por esses míseros cabelinhos nas maçãs da barba ou no bebedouro, os olhinhos pequenos com os lagrimais afastados dos narizes amassados, mais pareceis da parentela do diabo do que criaturas feitas à imagem de Deus.
Fernão ouve-lhe a voz de falsa humildade a burlar-se dos algozes, proferindo doestos como quem reza.