O aventureiro estava a ser profeta em causa própria sem o saber, como a presente narradora poderá testemunhar ao leitor. Muito embora, após o seu regresso à pátria e até ao fim dos seus dias, fosse respeitado e consultado sobre as coisas do Oriente pelos mais reputados cronistas do seu tempo e a sua obra tivesse servido de guia a outros viajantes portugueses e estrangeiros durante mais de cem anos, nos séculos seguintes vingaram a dúvida e o cepticismo dos murmuradores invejosos sobre a sua extraordinária Peregrinação e Fernão Mendes Pinto foi rotulado de mentiroso e fantasioso, acusado de falar do que jamais vira e votado ao esquecimento.

Denunciada a injustiça, retomemos a nossa narrativa no momento em que a deixámos.

Com um coro de gritos, o cortejo pára de súbito diante das portas da prisão de Gofanjauserca e Fernão sente de novo o aperto do medo a sufocá-lo. O chifuu deixa-os com o lauteaa e segue para a pilanga do aytao ou tribunal da relação, a fim de entregar aos Doze Conchalys da Mesa do Crime – os desembargadores e juízes de apelação com alçada suprema –, o processo da sentença dos nove estrangeiros, o qual vem fechado com doze sinetes de lacre. Chegavam ao fim da sua jornada e as portas do Inferno abriam-se diante deles com a promessa de infindos tormentos e apenas a esperança da morte como libertação.

90 Enseada de Nanquim foi o nome dado pelos europeus a Hangzhouwan (baía de Hangzhou) e ao Donghai (mar de Este/mar Oriental).

91 Pequena embarcação de guerra ou de mercadorias, comparada pelos europeus à galeota e à fusta.

92 Na Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, Batampina compreende uma parte do rio Yang-tsé e o Pequim-Hangzhou ou Grande Canal (Dayunhe ou Jinghang).

II

Vale mais fazer o bem a quem está perto do que queimar incenso à distância

(chinês)

Da sentença do Anchasi de Nanquim, enviada a Pequim:

Visto o processo das culpas, em que se prova haver dos réus ruins indícios, que estes, por sua parte, não contrariaram em sua defesa cousa alguma e como ao que tinham dito se não podia dar crédito, foi ordenado que por então sejam publicamente açoutados nas nádegas, para que com este castigo emendem suas vidas, e que também lhes cortem os dedos polegares das mãos, com as quais por claras suspeitas se pode bem coligir terem eles feito roubos e males criminosos, merecedores de pena maior, pelo que se apela, por parte da justiça, para o tribunal do aytao da Batampina, a cuja alçada compete.

(Peregrinação, capítulo LXXX)

Os presos são logo conduzidos ao pátio das execuções onde, juntamente com outros condenados, os fazem deitar de bruços, de pernas estendidas e mãos atadas atrás das costas, para receberem os trinta açoites com canas de bambu nas curvas das pernas, por ainda não estarem saradas as cicatrizes das nádegas, obra das flagelações anteriores.

Dois algozes, postos de cada lado dos condenados, levantam a cana com ambas as mãos e fustigam-nos, um na perna direita, o outro na esquerda, com grande crueza. Fazem em voz alta a contagem, sem se perturbarem com as súplicas, choros e gritos que se vão transformando em uivos de bicho estripado, para aos poucos se fazerem roncos de agonia e silenciarem, à medida que os réus dos maiores crimes, com penas de mais de cinquenta açoites, perdem os sentidos ou a vida.

Há sentenças até de cem açoites, cuja morte é certa, a menos que o condenado possa untar as mãos aos carrascos e guardas, sem os mandarins o saberem, ou aos próprios mandarins, caso o preso seja de grande qualidade com muita fazenda para pagar peitas em prata ou ouro. Nenhum dos nove portugueses é isentado do castigo e Fernão grita, chora e suplica como os demais. Enquanto os algozes fazem a carniçaria, os lauteaas presentes se desenfadam, em animada cavaqueira, comendo, bebendo e esgaravatando os dentes, tão à sua guisa como se estivessem a ouvir música numa casa de chá ou taverna d’el-rei.

Findas as punições, o pátio parece um açougue, com o lajedo coberto de sangue; os portugueses, como não se podem ter de pé, são levados de rojo por uma perna até à enfermaria da prisão e lançados sobre esteiras no chão. Também ali os Irmãos da Misericórdia servem de enfermeiros, aplicando nas chagas lavatórios, mezinhas e uns pós milagrosos que mitigam de imediato as dores.

Nessa noite, mais aliviados do sofrimento mas sem conseguirem dormir, praticam em voz baixa, mantendo-se muito juntos para se confortarem e não serem roubados das esmolas dadas pelos tanigores de Nanquim.

– Temos de concertar muito bem a nossa história – recomenda Cristóvão Borralho. – Se nos desviarmos do que dissemos aos chaens de Taypor e Nanquim, a nossa vida não valerá dez réis de mel coado.

– A nossa sorte depende do Fernão Mendes e do Borralho que falam este linguajar que se me emperra na boca – lembra Álvaro de Melo, acrescentando para os dois visados: – Tratai de defender bem a nossa causa, companheiros.

– Sossegai, pois, como nos tangerem, assi bailaremos.

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