Coja Acem! Fora com grande crueza que António de Faria festejara a sua vitória sobre o odiado corsário que jurara perseguir sem descanso e matar todos os portugueses que passassem ao alcance dos seus navios. O capitão buscara-o com igual determinação, pelos mares da China, e vencera-o em fera batalha, com perda de muitas vidas. Findo o combate, desembarcara na ilha para enterrar os mortos, muitos dos quais portugueses. O desgosto acirrara-lhe a sede de vingança e ao ver, na aldeia saqueada pelo corsário, um templo que servia de hospital a noventa e seis dos seus homens, mandara lançar-lhe fogo por seis ou sete lados, sem atender aos pedidos de misericórdia dos enfermos. Não se dá vida a quem matou tantos cristãos!, bradara enfurecido.

O templo era todo de madeira breada, com tecto de folhas secas de palmeira, de modo que em menos de um credo se fez num braseiro infernal, com labaredas que tudo devoravam. Fernão recordava-se dos gritos horríveis dos acamados e também da cruel morte daqueles que procuravam fugir às chamas, lançando-se pelas frestas que a casa tinha por cima, para virem cravar-se nas lanças e chuças com que os recebiam no ar os portugueses do bando de Faria e os chins de Quiay Panjão, que também queriam vingar a morte dos moradores da aldeia, seus conterrâneos97.

– Quanto a mim, leva a primazia a todas as nossas malfeitorias – lembra Borralho, arrancando Fernão aos seus pensamentos – a profanação das sepulturas da ermida da ilha de Calempluy98, que destruímos para pilhar as jóias de prata e ouro nelas enterradas. Apesar de serem jazigos gentios, fizemos sacrilégio ao desacatar os mortos.

– Cousa de pouca monta – chasqueia Jorge –, visto ser nossa tenção furtar os tesouros dos túmulos dos dezassete reis da China sepultados nessa ilha!

Fernão murmura, com laivos de remorso ou medo:

– Cuido que o desaparecimento da panoura. da galeota do capitão Faria com toda a sua gente, assim como o naufrágio da nossa foram castigos de Deus por esses desmandos e crueldades. Se escapámos com vida foi decerto para expiarmos a nossa culpa com os tremendos trabalhos que temos sofrido nesta terra.

– Longe vá o agouro, homem! – Álvaro de Melo persigna-se. – Eu não tomei parte na pilhagem, por ser o meu quarto de serviço.

– Nanja eu, que estava mareado – acrescenta Gaspar de Meireles.

– Todavia haveis recebido o vosso quinhão do saque, portanto estais também sujeitos ao esconjuro do ermitão! – atiça-os Jorge, com um esgar de zombaria. – Depois de esmechado, unta-lhe o casco.

Joaquim Pereira replica com voz trémula:

– Que outra cousa era de esperar dessa empresa senão desastre? E não foi por falta de avisos, sinais e agouros de desgraça, que desprezámos pela ganância do prémio prometido pelo cabrão do cossairo Similau99 que tão bem nos soube enganar.

– Juro, pelo céu que nos cobre, eu mesmo lhe daria cruel morte naquela noute, na enseada de Nanquim – brada Álvaro de Melo, em voz alta, quase esquecido do lugar onde se acha –, se esse tredo não tivesse fugido do barco para terra. O fideputa cagou-se de medo com o juramento que Faria fez, com a mão nas barbas, de lhe dar morte às punhaladas, por nos meter a todos em tão perigosa aventura e tardar mais de oitenta dias a achar Calempluy.

– Após ele, fugiram trinta e dous dos quarenta e seis chins que levávamos – lembra Fernão, com um suspiro. – Nós bem queríamos volver a Liampó100, porque estávamos em grande perigo depois da fuga da chusma e do Similau, que era o piloto, mas Faria recusou.

– Uns pescadores disseram-lhe que a ilha ficava a poucas léguas do lugar onde nos achávamos – torna Álvaro. – Contai-nos o que haveis feito por lá, Fernão, pois alguns de nós não chegámos sequer a pôr os pés em terra. Sabeis bem contar histórias que nos ajudam a esquecer as dores e os grilhões.

Dores, tem-nas Fernão, bem grandes, mas também acha alívio nesses contos de desgraças e glórias que dão prazer aos companheiros, por isso, aquiesce de boamente ao pedido.

– Posto que tamanho tesouro não deixaria de estar com muita vigia e guarda, houve conselho, assentando-se que o capitão iria primeiro no seu junco rodear a ilha toda por fora, a ver as suas entradas e impedimentos ao desembarque.

– Dessa parte sabemos nós – impacienta-se Gaspar. – Conta o que viste em terra.

– A ilha era um formoso santuário, toda fechada em roda com uma fileira de monstros em ferro, de mãos dadas como se dançassem e o bosque de laranjeiras anãs com as trezentas e sessenta ermidas de que nos falara o tredo do Similau. Um quarto de légua mais acima, sobre um teso, erguiam-se os sete templos com as suas frontarias todas cozidas a ouro de alto a baixo, a cousa mais maravilhosa que vi em toda a minha vida. Houve quem dissesse que tínhamos achado a Ilha do Ouro.

Borralho, sem se conter, toma-lhe a palavra:

– Os espias não viram guardas ou soldados nas ruas, no entanto, desconfiando da fartura, Faria desembarcou com quarenta soldados e vinte escravos, mais o chim que já havia estado na ilha.

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