Os chins eram muito dados aos prazeres da carne, inclusive ao da sodomia, mas o da gula era o mais desbragado. Fernão perdia-se na contemplação dos edifícios das estalagens, com seus jardins ou matas para passatempos de pescarias e caça. Estavam sempre cheias de gente para ver autos, danças e jogos ou para assistirem a banquetes esplêndidos, que chegavam a durar dez dias, com grande aparato e serviço de moças virgens, formosíssimas e ricamente vestidas. A música e as canções atravessavam os muros, chegando como um eco aos ouvidos dos portugueses:
Em Ch’an An embriago-me ao vento primaveril,
O meu gorro está vermelho de flores
Postas às três pancadas.
Vi a grandeza e o declínio do mundo,
Mas nem por isso eu próprio fiquei
Mais pobre nem mais rico117.
Em cada uma das suas cento e vinte praças nobres se fazia todos os meses uma feira, o que feitas as contas dava quatro por dia em cada ano, pelo que Fernão pôde ver dez ou doze, durante os seus dois meses de liberdade, pasmando com a infinita gente que a elas concorria, a pé ou a cavalo, para comprar quer aos bufarinheiros que vendiam nas suas caixas tudo o que se podia imaginar e seria impossível de descrever em tão poucas palavras quantas as necessárias para que o leitor não perca a sua paciência e repute esta sua narradora de prolixa e mentirosa ou de plagiadora de antigos livros chins, a mesma fama que acompanhou Fernão Mendes Pinto por muitos séculos.
Os livros impressos eram sem conto, vendiam-se muito baratos, por ser a arte de imprimir um ofício antiquíssimo naquela nação, decerto incrementado pelo grande número de escolas e universidades espalhadas pelo império, para formarem os mandarins, pois só estes podiam desempenhar ofícios de governação e aspirar a altos postos. Ninguém era mais respeitado ou honrado no império do que eles, pelas suas letras, sabedoria ou ciência, porque os seus estudos eram muito caros, longos e árduos, com exames dificílimos, cujos erros e reprovações se puniam com duríssimos castigos de açoites.
Fernão fora testemunha dessa relevância, ao integrar a guarda do monteo no cortejo do Xileyxipatou, o senhor de todos os nobres, que ia presidir à graduação dos lauteaas; sendo o mais alto chaem da Justiça, o séquito espelhava a magnificência do seu estado. Os escrivães e oficiais mais baixos abriam caminho, dando muitos brados para o povo se afastar e deixar as ruas livres à sua passagem, sob a ameaça de açoites, como havia feito a gente do chumbim que o conduzira engaiolado do cais à prisão. Fernão sorrira da comparação, vendo como o cortejo, que então o fizera pasmar, só lhe parecera grandioso por ainda pouco ter visto das cerimónias à charachina, pois nem de longe aquele se podia comparar ao deste mandarim.
Após os escrivães, iam quatrocentos upos, brandindo correntes de ferro que rojavam pelo chão com medonho estrondo, mais o corpo da sua guarda composto por trezentos mogores e vinte e quatro porteiros de maça; atrás destes cavalgavam doze peretandas ou corregedores, empunhando bandeiras e outros doze com guarda-sóis de cetim com hastes muito compridas.
Na cauda do cortejo seguia o dignitário Xileyxipatou, sentado num carro triunfal, levando à direita um menino vestido de branco, com as insígnias da misericórdia nas mãos e, à esquerda, outro menino trajado de vermelho, com os símbolos da justiça, ambos montados em cavalos ajaezados e paramentados com as respectivas cores.
Atrás do carro, cavalgando facas brancas com jaezes de prata e gualdrapas de seda, trinta e seis mulheres tangiam e cantavam com vozes muito harmoniosas, seguidas por sessenta oficiais de justiça, a pé com espadas douradas às costas. Fechavam o desfile vinte cavalos, com ricos jaezes, cobertas de brocado, cada um acompanhado por seis alabardeiros e quatro estribeiros.
– É melhor ver por si próprio uma vez do que ouvir cem vezes de outros! – exclamara Fernão, terminada a cerimónia.
115 Este anónimo homem honrado pode ter sido Fernão Mendes Pinto, mais tarde companheiro do jesuíta no Japão.
116 Mogores, do persa Mughal, designava um dos ramos dos mongóis da Ásia Central, ocupado no século XVI na conquista do norte do Indostão; tártaros eram os mongóis da Tartária, assim denominados pelos chineses e portugueses; cauchins eram os naturais da Cochinchina.
117 Excerto de um poema de Lu-Yin (1125-1210).
X
Caça, pesca, guerra e amores, por um prazer dão mil dores.
(português)
Lição de Sunü jing, a Donzela Branca, ao imperador Huangdi118:
Huangdi: Mesmo quando sinto um forte desejo de sexo, a minha haste de jade não se ergue. Fico tão embaraçado que a minha face cobre-se de vergonha e de gotas de suor. Contudo, o meu desejo é tão forte, que recorro à ajuda da minha mão. Que devo fazer?