Sunü: Os homens costumam cometer um erro, enquanto fazem amor. As mulheres conquistam os homens como a água conquista o fogo. Os conhecedores da arte de fazer amor são como aqueles que sabem misturar os cinco sabores para fazerem uma boa refeição, como os conhecedores do modo Yin e Yang que gozam dos cinco prazeres da vida. Um homem deve saber como controlar o seu fluxo, ele não pode apreciar a vida se ignorar a arte do amor. Homens e mulheres são como o Céu e a Terra, cuja eterna natureza jaz na sua unidade.

Huangdi: Que acontecerá se não tivermos sexo?

Sunü: Tal não deve acontecer! Yin e Yang têm de alternar como tudo o mais na natureza. Os seres humanos devem seguir os ritmos do Yin e Yang, tal como seguem as mudanças das estações.

Huangdi: Como se chega à união harmoniosa do Yin e Yang?

Sunü replica: Para um homem o elemento essencial é reter o seu fluxo, para evitar o enfraquecimento da sua força; para uma mulher é o orgasmo. Os que não seguem este método enfraquecem. A função do orgasmo da mulher é manter o equilíbrio das energias, acalmar o coração, fortalecer a vontade e desanuviar a mente. Ao conciliar o orgasmo da mulher com a preservação das energias do homem, ambos experimentarão uma profunda sensação de bem-estar, sem sentir calor e frio, fome ou saciedade, para o corpo desfrutar o seu prazer em paz.

Os chins exerciam um grande fascínio sobre Fernão, Zeimoto e Cristóvão por serem um povo de muita polícia, governado por rígidos preceitos e cerimónias para cada acto das suas vidas, com uma sabedoria ou arte de viver como os portugueses nunca tinham visto em outro povo. Os três amigos esforçavam-se por aprender os seus usos, leis e crenças, a fim de não cometerem actos ofensivos que os levassem de novo à prisão com a pena agravada.

– O Yang é o princípio masculino, activo, diurno, luminoso e quente que governa os homens e Yin o princípio feminino, passivo, nocturno, sombrio e frio, próprio das mulheres – discorre Fernão. – Estes dois princípios opostos determinam todos os fenómenos do universo, todos os processos e situações do mundo, como a subida e a queda, a harmonia e o conflito. É assi, Cristóvão?

– Estás a converter-te à lei dos gentios? – ri-se Zeimoto.

– Vem no nosso livro – contrapõe Borralho – e já concordámos em que nos será útil conhecer as suas crenças. Pelo que eu entendi desse arrazoado, Fernão, ao Yin corresponde a linha quebrada, os números pares e o quadrado que, na sua forma pura, representa a Terra. Ao Yang corresponde a linha contínua, os números ímpares e o círculo, representando o arco do firmamento, o Céu. Os dois princípios são invisíveis, mas revelam-se através de cinco elementos – Água, Fogo, Madeira, Metal e Terra.

– Madeira e Metal não fazem parte dos quatro elementos primordiais, mas sim o Ar! – exclama Zeimoto.

– Para os chins, são cinco elementos que tanto podem destruir-se uns aos outros, como renovar-se: a Madeira destrói a Terra, porque a vegetação esgota o solo e a Terra destrói a Água quando a absorve; esta apaga o Fogo que, por sua vez derrete o Metal, o qual corta a vegetação, destruindo a Madeira. E a Madeira produz Fogo, que com as cinzas cria Terra, a qual, produzindo minérios, dá origem ao Metal, que faz brotar a Água em forma de fluidos que criam a Madeira ao gerarem vegetação.

– Silêncio!

Calam-se porque o saimento da parente do monteo entra agora no cemitério. O capitão favorecia os três degredados, agradado pelo seu esforço e interesse em aprender, tendo por boa obra educá-los como gente civilizada, por isso, decidira levá-los no seu séquito às exéquias da tia.

Durante as cerimónias, os três amigos sentem a dor da saudade e da solidão abater-se sobre eles como um pelouro de basilisco. O silêncio apenas quebrado pela melopeia dos cânticos e pelo sussurro do vento nas árvores, torna mais pungente o medo da morte, mais duro de sofrer naquela paz do que na aflição do naufrágio, com o tétrico quadro das ossadas empilhadas como uma montanha por trás de incontáveis capelas cheias de caveiras até ao tecto, com as estátuas aterradoras do seu culto, como a da serpente enrolada que tem na sua frente o homem com um pelouro na mão em jeito de o lançar.

Representam a Serpe Tragadora e o Muxiparão, o tesoureiro dos mortos, o qual dá o nome ao cemitério e impede a serpente de os levar para a Diyu, a Côncava Funda da Casa do Fumo – o reino governado por Yanluo Wang –, um labirinto sombrio de patamares e câmaras que servem de punição e renovação dos espíritos, preparando-os para a sua reincarnação, porque, quando a serpente morrer, os mortos ressuscitarão e irão morar para sempre na Casa da Lua. É a primeira vez que os três portugueses ouvem falar do Inferno e do Céu dos chins, a menos que tenham entendido mal a arenga dos monges que tratam da cremação do corpo.

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