Afinal as fustas iam ao estreito de Bab-el-Mandeb, o Portão das Lágrimas – a única passagem do mar Roxo para o da Arábia, no oceano Índico –, com a missão secreta de espiar quão verdadeiros eram os rumores de terem os turcos construído uma poderosa armada que, comandada pelo formidável Hadim Soleimão Paxá, se preparava para correr com os portugueses dos mares da Índia. Levavam também uma carta de António da Silveira para o seu feitor Henrique Barbosa que estava há mais de três anos em Arquico, no misterioso reino do Preste João, à espera de que o fossem buscar e aos quarenta portugueses que haviam escapado do assalto do rei de Zeila, Ahmed al-Ghazi, o Granhe ou o Canhoto, que capturara D. Manuel de Meneses juntamente com cento e sessenta dos seus homens.
Aprendera à sua custa que naquelas partes não se devia viajar contra as monções, porque as duas embarcações que seguiam juntas – em conserva, na linguagem dos matalotes – para melhor se protegerem de ataques inimigos, foram duramente fustigadas por ventos, chuvas e vagas temerosas, a ponto de crer que a sorte mais uma vez o abandonara e se iria perder naquela navegação. Porém, uma mudança dos ventos empurrara-os para a ilha de Çacotorá3, onde haviam feito a aguada e ele conhecera alguns cristãos descendentes dos primeiros convertidos pelo apóstolo S. Tomé, dos quais ouvira falar no reino sem todavia lhes dar crédito, tendo-os por uma das muitas lendas fabulosas que corriam sobre o Oriente.
Pouco depois de terem largado da ilha, sucedera uma coisa nunca vista, que só podia ser milagre, senão de Deus, pelo menos da natureza. Passavam dois relógios do quarto da modorra4, quando surgiram no céu umas barras de luz muito compridas, que saíam do horizonte, uma das quais parecia cingir todo o hemisfério e do seu pé partia uma segunda, atravessada; outras duas listas vinham juntar-se no zénite e da lua, que ficava entre estas e a mais comprida, saía nova barra de luz que ia também acabar na grande. Nunca ninguém, nas duas fustas, vira tal mostra no céu e os homens olhavam com pasmo, persignando-se para esconjurar o medo5.
Fernão tomara o encontro com aqueles antiquíssimos cristãos e o aparecimento do estranho fenómeno por bons presságios ou sinais da Divina Providência, como preparação para esta outra maravilha que o aguardava ali, ao alcance dos olhos: ia pisar a terra do Preste João, o Grande Abexim, o misterioso imperador que Pêro da Covilhã, um espião de D. João II, tinha descoberto e revelado às nações da Europa que o andavam buscando há mais de duzentos anos. Nestas circunstâncias Deus estava seguramente do lado dos portugueses e por isso ele não temera pela sua vida.
A fusta acostara. Cumpridas as manobras de ancoragem e as formalidades do porto, o cavaleiro branco subiu a bordo da Silveira para falar com o capitão. Com ele vinham três nobres abexins, pardos e não negros como os restantes membros da comitiva que ficaram em terra; bem apessoados e de bons corpos, usavam o trajo de guerreiro etíope feito de couros curtidos e vinham armados com espadas semelhantes às portuguesas em vez do arco e da lança indígenas.
Aproveitando a pausa na acção e o fim do capítulo, apressa-se a narradora a sair do anonimato para, com a sua própria voz, dar uma explicação ao leitor sobre o modo como carteou esta longa viagem por onde pretende levá-lo no rasto de Fernão Mendes Pinto, alertando-o para os escolhos, baixios e restingas onde poderia encalhar, correndo o risco de se perder.
Ao abordar a peregrinação de Fernão Mendes Pinto pelos mares do Oriente, debateu-se esta sua narradora com uma particular dificuldade, que apenas poderá ser ultrapassada com a cumplicidade do leitor: conciliar os tempos e os lugares de passagem deste irrequieto andarilho (tão móveis quanto diversos) com a estrutura narrativa repartida por sete mares, de modo a completar as histórias de cada um deles, articulando ainda os episódios vividos no presente com os sucessos do passado, aquando dos primeiros encontros dos portugueses com esses povos e lugares.
E porque a vida humana é imprevisível e não imita a ficção, mas sim o contrário, a narradora roga ao seu leitor que entre neste jogo de quebra-cabeças e, qual Viajante no Tempo, se passeie por esta teia intemporal ao sabor da narrativa.
1 Embarcação de cerca de trezentas toneladas, chata, alongada, com vela latina (triangular) e dezasseis bancadas de remos para as suas chusmas ou tripulações.
2 Cafre, da palavra árabe kàfir (infiel), designava o negro do sertão africano, não cristão e sem polícia, ou seja, pouco civilizado, na perspectiva do conquistador e do mercador muçulmano ou cristão.
3 Soqotra ou Sukutra, uma das maiores ilhas ocidentais do oceano Índico, à entrada do mar Roxo, conquistada por Afonso de Albuquerque com Tristão da Cunha onde, dada a sua importância estratégica, se fez uma fortaleza que pouco tempo depois acabou por ser abandonada devido às dificuldades de manutenção.
4 Turno da meia-noite às quatro da manhã.