Francisco de Faria escrevera-lhe cartas de recomendação para Pêro de Faria, um parente há muito estabelecido em Goa, assim como para um fidalgo seu amigo que ia na mesma nau, pedindo-lhe para o tomar sob a sua protecção. Este falara com os oficiais, gabando-lhes as letras de Fernão e o seu bom engenho, conseguindo que o pusessem como ajudante do boticário e barbeiro, em vez de trabalhar com os matalotes nas rudes fainas do mar para pagar a sua passagem.
A longa travessia dos dois oceanos fora uma verdadeira escola das manhas de sobreviver a qualquer preço, ministradas por malfeitores e criminosos sem escrúpulos e aprendidas à própria custa pelos grumetes mais moços e inocentes ou por quem viajasse sozinho e não se soubesse defender. Por ser bom de peleja e gozar da protecção de gente de qualidade, Fernão nada sofrera, evitando todavia imiscuir-se nas contendas da vilanagem para defender alguma vítima mais fraca, mesmo que o coração o impelisse a fazê-lo, seguro de que se o tentasse já não veria o amanhecer, pois nessa mesma noite teria a garganta cortada e seria lançado ao mar, sem ninguém se dar conta da malfeitoria.
Quando no ano da morte d’el-rei D. Manuel, em mil quinhentos e vinte e um, o seu tio o levara da casa paterna, na pacata vila de Montemor-o-Velho, para o serviço de uma senhora fidalga de Lisboa, a fim de lhe dar melhor vida, a mudança fora tão súbita e brutal como se tivesse passado do jardim da inocência para a terra da perdição. Ninguém preparara o menino de dez anos para os jogos e intrigas da Babel cosmopolita, faustosa e corrupta, que era a capital do reino, onde por pouco não perdera a alma e a vida.
Ao embarcar para a Índia, se acaso guardava ainda alguns resquícios de inocência desses tempos de meninice e juventude ao serviço do Mestre de Santiago, perdera-os irremediavelmente durante a viagem, vendo como o comportamento dos que embarcavam em busca de fortuna se assemelhava mais ao das feras do que ao dos homens. A experiência, por outro lado, ensinara-lhe que não devia esperar ajuda de outrem, pois no Oriente cada um era por si, o que, seja dito em abono da verdade, não era muito diferente no reino.
À sua chegada, no dia cinco de Setembro, a Diu – onde as naus d’el-rei, Frol de la Mar, Galega e Santa Bárbara, tinham ido deixar homens de reforço na fortaleza ameaçada pelos turcos –, vendo a alegria e o caloroso acolhimento com que eram recebidos pelo capitão António da Silveira e pelos seus companheiros, Fernão experimentara uma sorte de epifania ao sentir que fazia parte desse pequeno punhado de homens, quase todos portugueses, a quem Deus concedera o privilégio de visitarem, antes de quaisquer outros europeus, aquelas remotas paragens para aí se estabelecerem.
Com surpresa constatara que os mercados do Ocidente não chegavam sequer aos calcanhares dos da Índia, tendo muito pouco para oferecer em troca da variedade e riqueza dos seus produtos, quer naturais quer manufacturados, que ele via expostos por toda a parte, como se aquele lado do mundo fosse um bazar inesgotável para os mercadores que ali vinham carregar os seus navios ou as suas cáfilas. Fernão sentiu crescer dentro de si a ânsia de descobrir as ilhas encobertas de que falavam os matalotes, cujas areias eram pó de ouro e as pedras pepitas; ou, na sua impossibilidade, buscar as fontes odoríficas das especiarias, essa cornucópia de fortunas feitas em pouco tempo e quase sem trabalho.
O capitão da fortaleza, António da Silveira e Meneses, era um fidalgo da casa real, filho de Nuno Martins da Silveira (senhor de Góis e mordomo-mor da rainha D. Catarina) e irmão mais novo de Luís da Silveira, o conde da Sortelha. Cavaleiro de grande coragem, servira já como capitão de Goa e de Ormuz, antes de lhe ser dada a capitania de Diu e era tão generoso e mãos-largas que dava mesa, à sua custa, a mais de quinhentos homens.
Os bons auspícios que Fernão tivera no início da viagem confirmaram-se, dezassete dias depois de ter posto o pé em terra, quando estava ainda sem saber o que fazer da sua vida no arraial de tendas onde se acolhiam os recém-chegados sem pouso nem protectores na terra. Um capitão seu amigo, que ia partir com duas fustas para o mar Roxo, desafiara-o a acompanhá-lo, alvoroçando-o com a promessa de andarem às presas nos barcos de Meca, cujo saque o haveria de enriquecer. Aceitara a oferta sem hesitação.