Visto e sabido tudo o que lhe convinha para a sua empresa, Albuquerque convocou novo conselho, mas, antes de começar a tratar dos negócios da guerra, pediu aos seus oficiais para receberem os capitães chins que lhe vinham agradecer a devolução dos juncos e o salvo-conduto para saírem do porto de Malaca. Os visitantes entraram com os línguas, fazendo as suas zumbaias de cortesia e o governador recebeu-os de pé, com mostras de grande amizade.

– Há muito tempo que o rei de Malaca nos tem retidos – falou o capitão Pulata que chefiava a embaixada – e não nos deixa partir, porque quer usar as nossas gentes nos navios da sua armada, em guerra contra o rei de Daru. Graças à vossa chegada, ficou muito ocupado em fortalecer a cidade, deixando de nos vigiar tão apertadamente, pelo que todos os nossos homens, às escondidas, já recolheram aos juncos. Podes usá-los como soldados ou matalotes e a nós como teus capitães nesta tua empresa.

Ao ouvirem a oferta do chim, os portugueses soltaram exclamações de surpresa e agrado, calando-se quando ele acrescentou:

– Meu senhor, como amigos te dizemos que olhes bem o que vais fazer, porque a cidade está muito fortificada. Devias sujeitá-la pela fome, tolhendo-lhe os mantimentos que lhe vêm de Java, pois de outro modo, sendo vós tão poucos a vitória é muito duvidosa. O rei proveu-se de infindas munições, tem vinte mil homens de armas, naturais da terra e jaus, sendo dez mil deles muito bons de guerra, bem armados de espadas e escudos que lhes deram os guzarates. Conta também com inúmeros frecheiros turcos, rumes, coraçones e persianos, além dos seus elefantes de guerra.

– Fico-vos muito agradecido pelo conselho de boa amizade, e quer tenhamos paz quer guerra com el-rei, quedai seguros de que vos mandarei restituir os juncos que ele vos tomou. Por ora, estamos determinados a cometer este feito tão necessário à nossa honra e, embora o poder d’el-rei de Malaca seja grande, nós não temos medo a nada e já estamos acostumados a pelejar com elefantes.

– Se o tentares, senhor – volveu o chim –, toma muito cuidado no desembarque da tua gente, porque por fora das tranqueiras e pela praia há muitas covas cobertas com palha, armadilhadas com pólvora e estrepes140.

– Rogo-vos muito que espereis mais alguns dias, para assistirdes à tomada de Malaca e levardes notícia a el-rei da China de tudo o que aqui se passar. Folgarei muito, se quiserdes ir todos no meu batel para ver de perto o modo de pelejar dos portugueses, o grande ânimo com que hão-de acometer a cidade.

– Assi faremos. Todavia, pesa-nos que não nos permitas servir-te nesta empresa.

– Se recuso a vossa oferta, que muito me honra, é por medo de vos causar dano, se este feito não nos correr de feição e Mahamed quiser vingar-se. Rogo-vos, todavia, que me empresteis as vossas barcas para o desembarque da minha gente.

– Contai com elas. Pedimos-te também licença para partir e volver à nossa terra, com a promessa de que, se tomares Malaca, volveremos todos aqui, carregados com muitas mercadorias.

Após a saída do estranho bando, Albuquerque deixou de sorrir, ficando por momentos em silêncio, que ninguém ousou interromper.

– Estou muito afrontado com o que aqui se passou. Os chins acham esta nossa empresa duvidosa, por sermos nós poucos e os de Malaca muitos. Para me desafrontar estou determinado a acometer a cidade antes deles partirem para a China e a fazer aqui uma fortaleza que se possa suster no futuro, que é o que mais cumpre ao serviço d’el-rei nosso senhor. Sem a fortaleza, de pouco proveito nos servirá o muito que aventurámos para a tomar. Malaca é a escápula principal deste mundo, aqui vêm os mouros de todas as partes, sobretudo do Cairo e Meca, buscar especiarias, pondo as nossas naus em risco. Olhai todas estas cousas e dizei-me o que devo fazer, porque se vos parecer mal fazer-se a fortaleza, não hei-de aventurar a vida de um grumete por quantos mouros houver em Malaca.

Foi longa a prática dos capitães e dos fidalgos, porque sempre há pareceres contrários entre os portugueses, qualquer que seja o assunto; só com muita paciência ou, por vezes, decidindo à revelia dos seus pareceres é que o governador podia agir. Concordaram, por fim, com algumas reservas, que se acometesse a cidade para a conquistar e fazer a fortaleza. Concluídas as assinaturas, Albuquerque declarou-lhes:

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