Como sempre que queria atemorizar mouros ou gentios, o governador apresentava-se com grande pompa, quer nos trajos quer nos gestos. A barba muito alva, que ele jurara só cortar em Ormuz sobre o corpo morto de Coja Atar, chegava-lhe abaixo da cintura e ele prendia-a com um nó ao cinto. Tinha um ar tão majestoso que o Tuão lhe fez as suas zumbaias mais cerimoniosas, como se ele fora o imperador da China, dobrando por três vezes o corpo até o rosto tocar nos joelhos. Só então Albuquerque se pôs de pé para o receber com boas palavras, mas logo se tornou a sentar, mandando pôr sobre a alcatifa umas almofadas de seda onde o mouro se acomodou e, deste assento mais baixo, lhe deu a mensagem de Mahamed.
– El-rei meu senhor vos manda perguntar para que é tamanha armada como a que trazeis. Deseja saber se vindes para a guerra ou para a paz, porque ele outra cousa não deseja senão amizade com o rei de Portugal. – E mentia com quantos dentes tinha na boca ao acrescentar, manhoso: – Por essa razão mandou cortar a cabeça ao seu bendara, como castigo pela morte dos cristãos da feitoria, cousa em que ele não teve nenhuma culpa.
Admirávamos o esforço de Albuquerque em conter a sanha e as ganas de atirar o mouro fementido borda fora da Frol de la Mar.
– Dizei a Sua Alteza que lhe peço a mercê de me mandar entregar os cativos e pagar toda a fazenda que lhes foi tomada pelo bendara. Então falaremos em pazes.
– El-rei meu senhor promete que quando se concertarem as pazes, vos mandará os cristãos com tudo o mais que vos foi tomado.
– Assi não pode ser! Não hei-de fazer nenhuma concertação antes de ter os cativos com toda a sua fazenda. Não sairemos daqui sem darmos conclusão a este negócio, porque a minha armada não vem buscar carga, vem para fazer guerra aos que não quiserem ter paz connosco.
Mahamed entendeu a ameaça, porque logo começou um vaivém infindável de mensagens sem nenhuma conclusão, uma situação insuportável que Albuquerque sofria com uma paciência de Job, de que ninguém o julgara capaz, para conseguir a libertação do feitor e dos seus homens. O Terríbil entendia bem as causas da desfaçatez do rei: a cidade, de cem mil habitantes, era defendida por fortíssima artilharia, um exército de trinta mil guerreiros, além de uma hoste de elefantes de guerra e uma armada de inúmeros navios bem providos de bombardas de vários tipos. Para Mahamed a desproporção entre a sua força e a dos portugueses era semelhante ao confronto entre um elefante e um moscardo, portanto, quase desprezível.
Araújo sabia de tudo o que se passava no conselho d’el-rei, por Nina Chetu, um mercador seu amigo, e tomava conhecimento dos trabalhos de defesa por outra devotada espia. Os portugueses cativos viviam amancebados com mulheres da terra que, condoídas da sua triste condição os tinham socorrido por caridade, acabando por ganhar vontade àqueles homens de outra religião e raça que as tratavam melhor que os naturais, adorando-as como a deusas e, no leito, tomando-as sempre com uma paixão insaciável, fruto talvez do desespero ou da solidão. E elas tinham-se entregado a esse bem-querer com a devoção inteira e cega, própria da natureza das mulheres malaias, espiando por sua conta os homens de guerra, seus patrícios, para darem aviso aos amantes de tudo o que logravam saber, não estimando perder por eles a vida em tão arriscada empresa.
O feitor recomendava ao governador que se precavesse contra as manhas d’el-rei, pois a traição e a perfídia estavam-lhe na massa do sangue. Naquela terra os monarcas tinham um reinado de pouca duração, sucedendo-se uns aos outros a um ritmo muito mais rápido do que em qualquer outra nação do mundo, por ser uso matarem-se por cobiça, de tal modo que os irmãos não se fiavam uns dos outros. O mesmo faziam as gentes do povo que se matavam com dardos empeçonhados das suas zarabatanas, com que fingiam andar a caçar, lançando-as de tocaia aos inimigos.
Deste modo subira ao trono Mahamed que, para atalhar conspirações e revoltas, se apressara a apunhalar o seu meio-irmão, o legítimo herdeiro Celeimão, assassinando igualmente o seu filho e sucessor por este lhe ter pedido dinheiro para seus gastos, dando ainda a morte sem razão a outros dezassete parentes, de quem recolhera a imensa fazenda, tomando-lhes por mancebas as filhas e esposas de maior preço, que seriam cinquenta. Depois da queda de Malaca, os mouros diziam que os cristãos lhe tinham tomado o reino como castigo dos céus pelos seus grandes pecados.
Nada se fazia naquela terra sem licença sua ou do bendara, todos estavam sujeitos aos terríveis castigos e penas de morte que a sua crueldade determinava, a que apenas escapavam os nobres que podiam escolher a morte pelo cris, às mãos de um parente próximo. A gente baixa era lançada sobre estrepes, cozida em água a ferver, ou assada e comida por uma raça de gentios de Aru ou de Bata, que o rei mandava vir de Samatra para esse fim.