Afonso de Albuquerque escreveu a Araújo, dizendo-lhe que temia acometer Malaca porque poria em grande risco a vida dos cativos, mas a corajosa resposta do feitor ajudou-o na decisão. Convocou os capitães e os fidalgos principais da armada para conselho, leu-lhes as cartas que escrevera ao rei de Malaca e a Araújo, assim como a resposta que recebera do feitor, pedindo-lhes para se pronunciarem sobre se deveria ter mais alguns cumprimentos com o dissimulado rei Mahamed ou, se pelo contrário, deveria assaltar a cidade sem mais demora.

136 Nas Filipinas.

137 Peregrinação, capítulo XC.

XIX

O cão ladra à cauda do elefante

(malaio)

Carta de Afonso d’Albuquerque a Mahamed, rei de Malaca:

ElRei Dom Manuel meu Senhor mandou a este vosso porto um Capitão com certas naus que vinham mais carregadas de mercadorias, que de gente, com desejos que tinha de assentar paz, e amizade convosco; e sobre vosso seguro, e do vosso Bendara, haveis roubado toda a fazenda, e matado, e cativado os Portugueses, como vos já tenho dito, e trabalhastes quanto pudestes por lhe tomar suas naus, se milagrosamente os Nosso Senhor não livrara.

Sabei certo se me logo não mandais entregar os Cristãos, e toda a fazenda, que tendes tomada, vos hei-de destruir, com tomar-vos a vossa Cidade. Se os houvésseis tomado de boa guerra ou por represália, então eu vo-los resgataria pesados a ouro, mas pois os cativastes com traição logo mos haveis de entregar com boa paz, que por isso assentarei convosco.

Porque se o não fizerdes, os Portugueses estão tão doudos que os não posso ter e há na armada irmãos e parentes dos cativos que juram de os tomar resgatados com fogo e sangue; e logo vos querem ir buscar dentro em vossos paços.

Tomo a Deus por Juiz, que vós, e vossos Governadores sereis causa da vossa destruição, pois por conselho dos Guzarates, que são imigos capitais dos Portugueses, não quereis tomar conclusão nenhuma de paz comigo. Pelo que vos digo que hajais bom conselho e me mandeis resposta sem engano de falsidade, porque eu tenho um grande adivinhador, que me deu o rei de Cochim, o qual me descobre todas as traições.

E dou-vos por sinal disto assi ser, mudar o anel de um dedo para o outro138.

Calvo faz uma pausa para beber um trago de vinho e refrescar a boca seca pelo longo relato. Vicente Morosa aproveita o descanso para acrescentar:

– Nas suas rebolarias, o rei Mahamed fazia sair todos os dias do rio uma armada de lancharas139, com muita gente de peleja, que dava uma surriada de artilharia às naus e se tornava a recolher. Albuquerque mandou Fernão de Andrada com dez batéis armados dar-lhes rebate ao longo da ribeira com fogo de berços e falcões.

– O governador precisava de conhecer o poder e modo de defesa de Malaca – retoma Calvo –, ver onde tinha assentado a sua artilharia e quanta gente havia para a defender.

A cidade acordou estremunhada, com os seus moradores a fugirem de casa num grande tumulto, levando os filhos e o fato às costas, tão desatinados de terror que não acertavam por onde iam. A estratégia de Albuquerque deu frutos, pois ele viu que acudia à defesa muito mais gente da povoação dos mercadores, a norte, do que da banda da mesquita, a sul, onde estavam as casas d’el-rei. A ponte que ligava as duas margens da cidade era o lugar mais fortificado, pois ali acudira Mahamed com os seus elefantes e a sua tropa de escol.

A multidão acorreu aos paços, com grandes prantos e clamores. Mahamed, temendo o levantamento do povo, deu-se pressa em soltar os portugueses e enviá-los aos batéis da armada com o recado de que obedeceria ao governador em tudo o que ele lhe mandasse. Rui de Araújo e os companheiros foram embarcados em almadias que remando debaixo de fogo com grande perigo, lograram chegar-se aos pelejadores, com muitos acenos e brados de “Paz! Paz!”.

Os capitães, reconhecendo-os, deram ordens de cessar-fogo, capearam aos navios para que fizessem o mesmo; o tumulto das bombardas cessou nesse instante e os marinheiros, saudando os cativos com grande alegria, recolheram-nos nos batéis para os levarem à Frol de la Mar, a nau capitânia, onde o governador abraçou cada um deles, com lágrimas de alegria, e a Rui de Araújo com particular satisfação:

– Temi muito pelas vossas vidas. Mahamed é fementido e manhoso como uma raposa, por nada vos queria soltar.

– Cuidei que desta vez íamos morrer – respondeu-lhe o feitor, chorando de gratidão. – Os guzarates foram os que mais nos perseguiram, meu senhor, com promessas e tormentos para renegarmos a nossa Fé. Alimentavam a desconfiança d’el-rei contando-lhe os males que, segundo eles, os nossos têm feito por toda a Índia. Se não fora o socorro de Nina Chetu que pagou muitas peitas aos nossos algozes e nos mitigou a fome, nenhum de nós teria escapado com vida.

Albuquerque passou a mão direita pela comprida barba, de uma alvura de neve, segurou-a entre os dedos como um rosário e prometeu-lhes:

– Juro-vos, por estas minhas barbas, que deles tomareis dura vingança, já que não é possível concertar a paz com el-rei.

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