– Atacaremos depois de amanhã, vinte e cinco de Julho, dia de Santiago. – Soltou uma risada e o seu rosto pareceu rejuvenescer: – Haverá melhor dia do que este para dar santiago nos mouros? Ceai, repousai até à meia-noite e esperai que eu vos faça sinal com um tiro de berço, para começarmos a dar-lhes bateria de pelouros grossos. Acometeremos com a preia-mar, às duas da manhã. António de Abreu irá com o junco abalroar a ponte, ajudado por Duarte da Silva numa galé e por Simão Afonso numa caravela. Tomadas as vossas tranqueiras acudireis todos ao meio da ponte, onde vos direi o que haveis de fazer, pois como ainda não vi a cidade, não posso determinar já as nossas acções. Levarei também duas barcas com peças grossas de artilharia para fazerem fogo sobre ambas as partes da angra e guardarem as costas dos nossos homens que estiverem a fazer as tranqueiras.

– Eu desembarcarei do cabo da ponte onde estão a mesquita e as casas d’el-rei – secundou D. João de Lima –, com Gaspar de Paiva, Fernão Peres de Andrada, Sebastião de Miranda, Fernão Gomes de Lemos, Vasco Fernandes Coutinho, com o corpo da gente da armada que nos foi destinado.

– Logo que as estâncias forem entradas, acudiremos ambos ao meio da ponte, para aí nos fazermos fortes. Ou, se vos apartardes, vinde ter aonde virdes a minha bandeira. Rui de Araújo, quando nos virdes pelejar nas tranqueiras, ide com António Fernandes, por ambas as partes da cidade, cada um com vinte rocas de fogo, onde melhor vos parecer, abrasai quanto puderdes. António é um cafre da minha geração e meu homem de confiança, podeis contar com ele para tudo o que vier. Ide descansar e preparar-vos.

Calvo, exausto, faz uma pausa. Ninguém o interrompera com perguntas, presos da sua narrativa e Vicente não achara necessário acrescentar fosse o que fosse, pois, ao contrário do que dissera, o velho mostrara uma memória de cronista para citar nomes, sucessos e datas.

– Estou sem fôlego, mas Vicente pode narrar-vos o primeiro assalto à ponte, em que tomou parte – e acrescenta, sorrindo para Valentim –, ao lado do valoroso Pedro de Alpoim, capitão da nau Santa Catarina e vosso parente.

– Nisso farei muito gosto, mas terá de ser outro dia, que caiu a noite sem darmos conta, tão presos nos teve vossa mercê com a sua história. São horas de volver ao nosso abrigo, que os tempos que correm são de medos e desconfianças e eu não quero ser tomado por um espia dos tártaros.

138 Comentários do Grande Afonso de Albuquerque, parte III, de Brás de Albuquerque.

139 Tipo de embarcação asiática que podia ser usada em combate.

140 Puas e estacas de ferro ou madeira aguçada, cravadas no fundo de covas, usadas para armadilhas de caça e de guerra.

XX

Onde há uma campina farta, há sempre gafanhotos

(malaio)

Malaca Conquistada pelo Grande Afonso d’Albuquerque, livro sétimo

XXXV. Chegados à distância, que podia

Fazer emprego, e efeito rigoroso

Nas imigas naus a artilharia,

Fogo ao salitre dão, que arde espantoso:

Nos ardentes pelouros morte fria

Se envolve, e logo se ouve um lastimoso

Som confuso de gritos, e gemidos

Dos que morrendo estão, e dos feridos.

XXXVI. Bravos os inimigos responderam

Também a artilharia disparando,

E, chegando a bordar, os receberam

Pedras, fundas, e dardos mil tirando.

Cobertos dos escudos remeteram

Os fortes Portugueses e pegando

Em várias partes fogo, num momento

Sobem chamas e fumo pelo vento.

XXXVII. Entrou o medo, confusão, e espanto

Nos Guzarates míseros, cercados

De fogo, e fumo, um lastimoso pranto

Aos ares levantando acobardados:

Vendo seu fim alguns em rigor tanto,

De outro remédio já desesperados,

Saltam por entre as chamas acendidas,

Procurando no mar salvar as vidas.

XXXVIII. Mas já também no mar a imiga forte

Lhes tinha aparelhada morte dura;

Acabam nele às mãos da gente forte,

Que a ferina treição vingar procura:

Preza os imigos já da justa morte,

Dão-lhes o mar, e fogo sepultura:

Movem contra a Cidade os vencedores,

Querendo executar novos rigores.

XXXIX. Bem como o bravo touro, magoado

Do farpão duro, segue ao que o feria,

E apenas morto deixa o moço ousado,

Quando outro logo segue ardendo em ira:

Tal Afonso iracundo, e indinado

Trás de um castigo a dar já outro aspira;

Com a Cidade belicoso cerra,

Fazendo a ferro, e fogo dura guerra.

(Poema heróico de Francisco de Sá de Menezes, 1634)

Os nove degredados não puderam ouvir tão cedo o resto do relato da conquista de Malaca, porque na muralha de Quansy soavam constantes alarmes causados pelos assaltos e incursões dos tártaros da fronteira aos lugarejos dos arredores, para roubarem gado ou cereais, ameaça confirmada pelos movimentos das hordas observados pelos espias que os chins mantinham sobre eles mesmo em tempo de paz. Com a população em sobressalto, os portugueses encontravam mais tarefas para fazer e estiveram ocupados duas semanas, até a cidade sossegar e regressar à mesmice do seu quotidiano.

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