Quando se apresentam de novo em casa de Vasco Calvo, felizes por poderem levar-lhe presentes de comida, terminada a ceia, não há tempo para cantorias, de tal modo estão ansiosos por ouvir o resto do relato do anfitrião, mas ele cede a vez ao camarada de armas:

– O Vicente melhor vos contará as peripécias do primeiro desembarque em que participou do princípio ao fim. Depois eu vos direi como se passou a peleja com os elefantes.

Ninguém se opõe e o companheiro retoma a história no ponto onde Calvo a deixara:

– Duas horas antes de amanhecer o dia de Santiago, estando já toda a gente metida nos batéis e nas barcas cedidas pelos chins, os capitães foram até à Frol de la Mar, de cuja amurada Frei Domingos de Sousa fez confissão geral e deu a absolvição aos combatentes. O governador mandou soar as trombetas e todos os barcos se dirigiram para terra, sofrendo alguns danos da forte artilharia inimiga, que assentada de cada lado da ponte atirava sem cessar, de modo que toda a praia ficou coberta de fumo e o mar parecia ferver.

Entrincheirados nas estâncias, esperavam-nos muitos mouros bem armados com gente da terra. Era a cilada de que em boa hora Rui de Araújo nos havia prevenido, contando os infiéis que nos fôssemos encravar nos estrepes. Eu e muitos outros que desembarcámos primeiro, ajudados pelos escravos dos capitães, tomámos os paveses que nos escudavam das flechas e, deitando-os no chão, fizemos um passadiço por onde os nossos puderam chegar às tranqueiras, sem tombarem nas covas ou rebentarem as minas. Ao toque de tambores e trombetas, de ambas as partes da ponte, acorreram batalhões de mouros a defenderem a entrada da cidade, uns armados de zarabatanas e arcos com flechas ervadas, outros com escudos, lanças e umas canas compridas de ferros em voltas como línguas de fogo, que nos faziam grandes estragos.

A peleja foi dura, porém apertámos tão fortemente com o inimigo que conseguimos entrar as tranqueiras, onde matámos, entre muitos, o Tuão, seu principal comandante, com dois capitães. Os mouros, vendo-se sem os seus cabeças, lançaram-se ao rio para salvarem a pele, mas os nossos matalotes que estavam nos batéis acudiram logo e acabaram de os matar.

Alguns dos nossos ainda perseguiram outros fugitivos além da ponte, quando da banda da mesquita lhes acudiu Mahamed com o seu filho Aladim e o rei de Pão, que viera a Malaca para o casamento da sua filha com o príncipe. Comandavam os seus elefantes de guerra e forçaram os mouros a tornar às estâncias que haviam abandonado. D. João de Lima, Fernão de Andrada com os da sua companhia, sem temerem os elefantes, lançaram-se contra eles com tão grande ímpeto que se assenhorearam da mesquita, fazendo recuar o rei.

– A partir de agora, amigo Vicente – interrompe Calvo –, posso revezar-vos e contar a batalha com os elefantes.

– Fazei-o em boa hora, que já tenho a gorgomileira seca! Assi, os nossos companheiros conhecerão toda a história, porque do que se passou da banda da mesquita, eu só sei o que ouvi contar.

Os dois veteranos das primeiras conquistas da Índia, tal como Fernão e os restantes companheiros, perdiam a noção do tempo e do lugar onde se achavam, esqueciam as misérias passadas, presentes e futuras, ao evocarem a portentosa empresa de Afonso de Albuquerque, o Terríbil, dos seus capitães, de muitos soldados e marinheiros iguais a eles próprios, que trouxera aos portugueses o domínio de todas as derrotas comerciais do Oriente.

– Pois eu estive lá e fiquei vivo para o contar – riu-se o anfitrião, feliz por reviver a sua aventura: – Tomada a tranqueira com muitas panelas de pólvora, ao ouvirmos D. João de Lima e os capitães bradarem Por Santiago e Portugal!, corremos pela rua principal atrás dos fugitivos, indo dar à mesquita onde se tinham acobertado muitos mouros bem armados, que D. João de Lima só a duras penas logrou pôr em fuga.

Não chegámos a saudar a vitória porque vimos avançar contra nós el-rei Mahamed com a sua tropa de escol e dez elefantes de guerra, com grandes espadas atadas nos dentes e castelos em cima dos lombos cheios de frecheiros.

O esquadrão das alimárias era medonho, ao arremeter contra nós com bramidos de fazer gelar o sangue à gente miúda que começou a recuar, havendo já doze ou quinze homens mortos e muitos feridos. Albuquerque, tendo aviso do que se passava, veio pôr-se com a sua gente na boca da rua e enviou em nosso socorro Fernão de Lemos com os seus homens.

Como não saíamos das tranqueiras da mesquita, Mahamed deu ordem aos cornacas para arremeterem com os elefantes contra os nossos reforços, o que eles fizeram, carregando com grande ímpeto de trombas erguidas, bramindo como feras demoníacas sobre os homens que vinham na dianteira. Fernão de Lemos e Vasco Coutinho, com o ânimo dos valentes que pegam a morte pelos cornos, deixaram-se estar quedos, com as lanças na mão, até poderem visar o elefante d’el-rei e Fernão atirou-lhe uma lançada que falhou os olhos mas acertou em cheio dentro da orelha.

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