– Depois de toda a gente ter recolhido aos navios, os capitães foram nos seus batéis à capitânia perguntar a Albuquerque por que razão não quisera seguir a vitória, quando já tinham tomado as tranqueiras. Sem mostrar zanga no rosto ou na voz, ele deu a todos muitos louvores pelo ânimo que haviam mostrado em combate, dizendo-lhes, se bem me lembro e Calvo me há-de corrigir se me enganar: – Senhores, bem vejo como a vontade de vossos corações e as obras de vossas mãos são dignas de grandes merecimentos. Contudo, muito vos peço por mercê, que vos sofrais e me deixeis ir com esta cousa de pouso em pouso, porque é mui grande para logo arrematar, visto sermos poucos e termos muitos contrairos. Tenhamos confiança na paixão de Nosso Senhor, que por sua misericórdia porá esta cidade em nossas mãos, se houver esta empresa por seu santo serviço. E eu queria que ela fosse o mais barato que pudesse em sangue de portugueses.
– Foi assi mesmo, sem tirar nem pôr! – aplaude Calvo. – Os capitães ficaram comovidos com a resposta do governador, caindo na boa razão e volvendo aos navios a reparar os danos e aparelhar as suas gentes para novo assalto. Vossa mercê lembra-se da troca de recados que então se passou entre el-rei Mahamed e Albuquerque?
Vicente solta uma risada.
– Até teve graça! Mahamed tinha o topete de se mostrar escandalizado por Albuquerque lhe fazer guerra, depois de ele lhe ter entregado os cativos, que eram o pomo da discórdia.
O mouro, como sempre, dissimulava a sua perfídia, para ganhar tempo, enquanto mandava tapar as bocas das ruas que vinham dar à praia, porque a cidade não tinha muralhas, fazendo em todas elas tranqueiras de entulho, com andaimes por dentro para a sua gente pelejar e por fora abriu minas e covas com muitos estrepes para os nossos, como fizera na praia. Albuquerque hesitava em atacar; a nossa gente de armas não passava de mil e duzentos portugueses e duzentos malabares.
Os capitães chins, não vendo conclusão na conquista, vieram à Frol de la Mar pedir ao governador licença para partir.
– Se não formos agora, Alto Senhor, perderemos a monção – falou o capitão Pulata, delegado de todas as suas demandas – e teremos de esperar meses até podermos navegar sem perigo. Com este estado de guerra na cidade, não se consegue comprar quaisquer mantimentos, já nem temos arroz bastante para comer durante a viagem!
– Ide-vos muito embora – disse-lhes o governador, entregando-lhes presentes de despedida. – Lembrai-vos de que me haveis prometido volver aqui com as vossas mercadorias para fazerdes tratos connosco.
– Sendo vós senhores de Malaca, eu vos juro que virão muito mais juncos nossos, com riquezas que vos hão-de espantar.
Albuquerque mandou o feitor da armada dar-lhe arroz com abastança e consentiu que levassem a carga de pimenta que tinham nos seus juncos, embora fosse mercadoria de mouros e só aos mercadores gentios deixasse fazer tratos. Entregou-lhes uma carta para o rei da China e outra para o do Sião, aonde o capitão Pulata ia aferrar na sua cabotagem, enviando com eles, por emissário, um dos companheiros de Rui de Araújo que sabia a língua, a fim de dizer ao rei que queria ter paz com o seu reino, podendo ele enviar gente dos seus portos a povoar Malaca que estava despejada de mouros seus inimigos. Feitas as despedidas, os chins partiram muito satisfeitos com o governador e tendo os portugueses em alta estima.
Ficou reunido o conselho dos capitães os quais fizeram eco das palavras dos chins, dizendo que aquela conquista estava a ser uma empresa muito trabalhosa, assaz demorada; a monção estava a chegar e, como eles haviam dito, ou partiam para Goa ou ficariam presos no porto à mercê d’el-rei de Malaca.
– Tendes de pôr fogo à cidade, meu senhor – aconselhou-o Rui de Araújo –, de contrário só com muito trabalho e grande perda dos nossos, lograreis tomá-la. ou não.
– Se abrasarmos a cidade – contrariou Albuquerque –, toda a sua riqueza se consumirá e a nossa gente terá todo o trabalho sem o proveito do saque.
– Senhor, ainda que se queime Malaca, o melhor dela quedará, pois a sua mor riqueza está dentro dos gudões, umas casas de pedra fortes, em parte feitas debaixo do chão, com tais amparos nas portas que, embora tudo se faça em brasas, o que tiverem dentro não sofrerá qualquer dano.
– Se assi é, Rui de Araújo, estamos conversados! – decidiu o governador. – Amigos, fazei prestes as vossas gentes que vamos conquistar Malaca pela segunda vez e, tal como fizemos em Goa, não abriremos mão dela.