Vendo a sua gente metida entre dois fogos, Mahamed desamparou as tranqueiras, pondo-se em fuga com os cerca de três mil homens que lhe restavam. Albuquerque deixou de guarda à mesquita os capitães que a tinham conquistado e foi com os seus homens aquartelar-se na ponte para, juntamente com António de Abreu, dirigir os trabalhos de construção de duas tranqueiras fortificadas nos cabos dela, com as pipas cheias de terra, protegidos pela artilharia das duas barcas, que varejavam as costas com tiros cruzados.
Enquanto se faziam as tranqueiras, dos telhados das casas os mouros continuavam a disparar tiros de espingardões ou de artilharia que feriam a nossa gente e o governador enviou Gaspar de Paiva com cem homens pôr fogo à cidade do lado da povoação dos mouros e Simão Martins com outra centena a queimar as casas d’el-rei, para lá da mesquita. Mandou também os irmãos Andrada, Pêro de Alpoim, António de Abreu, D. João de Lima, com outros capitães cujos nomes me não lembram, que fossem com as suas capitanias divididas em duas partes percorrer a cidade a dar a morte a tudo o que tivesse vida.
Mal entraram na cidade, os capitães acharam alguma resistência que venceram sem custo e continuaram a percorrer as ruas, matando toda a gente miúda que topavam pelo caminho, sem poupar a vida a ninguém. Os que se deitavam ao mar, cuidando salvar-se, caíam sob os golpes dos nossos matalotes que andavam nos esquifes a pescá-los. Ainda não tínhamos terminado os trabalhos nas tranqueiras e já o fogo, alastrando dos dois lados com o vento forte, consumia grande parte da cidade.
Com a chegada da noite, a nossa gente recolheu-se, exausta, para comer e dormir em segurança, nos barcos ou nas estâncias que tínhamos fortificado, fazendo quartos de vigia toda a noite, apesar do cansaço, a espaços varejando as ruas e o rio com tiros de peças grossas, para impedir os mouros de construírem novas tranqueiras, queimarem os nossos navios ou matarem-nos durante o sono.
Antes de regressar às estâncias da ponte, onde iria passar a noite, o governador foi visitar o junco que servia de hospital. Sofreu um rude golpe quando viu tantos dos seus capitães feridos, pela muita falta que lhe fariam se intentasse o assalto à povoação onde vivia o rei, aprazado para a manhã seguinte, o que já não poderia ser feito.
– E ainda bem que se não fez – interrompe-o Calvo, com um brado –, pois se tivéssemos entrado de roldão e esbarrondado pela cidade, nesse segundo dia, o resultado teria sido seguramente funesto e hoje talvez Malaca não fosse nossa! Valeram-nos os dez dias que Afonso de Albuquerque gastou a conquistar a cidade, avançando aos poucos, tomando posições, fortalecendo-nos nelas, enquanto íamos matando todo o mouro, malaio ou jau que topávamos pela frente, fosse homem, mulher ou criança, velho ou novo, para que não viesse a cometer traição.
Vicente lembra-lhe, rindo-se:
– O que atacavam as estâncias em que nos aquartelávamos ou nos faziam resistência nas ruas, porque a fome os impelia a assaltar os gudões do arroz, recebiam tanto dano que aos poucos foram esmorecendo o ânimo. Tinham sido também abandonados pelos mercadores e gente estrangeira que vieram pedir seguro ao governador, conforme ele mandara apregoar que lhes daria, assim como aos malaios que, dali em diante, quisessem dar obediência aos portugueses.
– Mahamed não se rendeu! Como foi que o deixaram fugir?
– Sua Alteza adiantou-se-nos – ri-se Calvo. – Avisado por algum espia, não quis esperar que fôssemos acometer a povoação do outeiro onde a família real, os nobres e a gente principal de Malaca tinham as suas casas. Perdera a cidade, mas não iria deixar que lhe tomássemos o seu tesouro, o qual mandou carregar nos alifantes durante a noite e, ao nascer do dia, partiu com o príncipe, os capitães que haviam escapado da batalha, os seus mandarins com as respectivas famílias, a caminho do sertão aonde montaria o seu arraial, à espera de melhores tempos. Acreditava que desejávamos somente roubar a cidade e, terminado o saque, partiríamos com a monção. Então, ele retomaria o seu reino.
– Albuquerque mal teve rascunho da sua fuga, foi-lhe logo no encalço, mandando os capitães com a sua gente na dianteira, porém, quando subimos ao outeiro, já o cortejo dos fugitivos ia tão longe que não o podíamos alcançar. Foi tanta a nossa sanha de os ver fugir que deitámos fogo às casas d’el-rei, do príncipe e dos seus mandarins. Faríamos o mesmo a toda a cidade, se não fosse o defeso do governador e o medo dos castigos com que nos ameaçava, para que se não consumissem as suas riquezas. A fim de nos consolar e premiar pelo que todos tínhamos sofrido com aquela conquista, consentiu a todos que saqueassem a cidade à escala franca, com excepção das casas e fazendas de Nina Chetu e dos demais mercadores gentios de Malaca.
– Fiquemos por aqui, amigo Vicente, pois arrebatámo-nos com as recordações dos nossos feitos e fomos prolixos em demasia, massacrando os nossos pacientes ouvintes com todas as minudências deste sucesso.